AZUL

É quase invisível a linha que divide o mar do céu.Tenho mesmo de me esforçar para a conseguir distinguir. Todos os dias, durante as férias, sou acordada por esta sinfonia de azuis. E como eu gosto de azul! Depois do sentido da visão, de uma visão azul, sou invadida pelo barulho das ondas, quando se desfazem no areal, ora mansas, ora revoltadas e perfumadas de maresia… E só aí acordo realmente… Aproveito o silêncio da casa, porque toda a gente ainda dorme e corro à varanda, que é o meu sítio de eleição. E aí, perante aquele manto que me encanta e apaixona, repito baixinho que sou quase feliz… Quem não o é, perante um cenário destes?! Estendo-me na espreguiçadeira e noto que a lua ainda não se despediu…Até ela tem pena de deixar tamanha beleza. Lá em baixo, na rua, ainda reina o silêncio. Óptimo! Umas quantas gaivotas voam, vindas do mar. Uma, mais corajosa, empoleira-se na minha varanda, a poucos metros de mim. Que inveja! Além de ter asas, vive junto ao mar! Tenho alguma dificuldade em não levantar voo e partir, sabe Deus para onde… Numa tentativa falhada, agarro o livro que me acompanha há dias e tento ler pela milésima vez o mesmo parágrafo. Mais uma vez desfaço o meu olhar naquele azul que me afaga a alma e me apura os sentidos e os sentimentos mais profundos e secretos. A sensação é quase mágica. Tão mágica como algumas palavras, porque há magia nas palavras! Uma noite qualquer destas, aqui há uns tempos, escrevi um poema, que me perdoem os poetas a minha imodéstia, onde eu dizia que as palavras podem ser azuis como o mar, quando amanhece quedo… e que podem ou não ter perdão. Há realmente palavras assim, azuis, quedas e cheias de sobressaltos. Volto a largar o livro, para apreciar o despedir da lua quando o sol aparece ainda envergonhado, quase a sentir-se culpado por impor a sua presença. Finalmente, distingo a linha do horizonte que separa os dois azuis e, ao longe, avisto um bando de gaivotas, que risca o céu de cinzento e branco. Inebriada com a paisagem, esqueço o livro e as palavras que ele aprisiona e enrolo mais uma vez o meu olhar numa onda. E, neste momento, repito baixinho que sou quase infeliz… Num exame rápido de consciência, abenço e maldigo a minha vida. O meu tanto é tão pouco! Por que raio hei-de eu ser assim? Os primeiros barulhos da casa incomodam-me. Preciso de mais tempo para mim…Fecho a portada e isolo-me mais um pouco. Quem sabe se não se esquecem de mim mais um tempo e me deixam ir ao sabor das ondas! A casa volta a mergulhar no silêncio e a única coisa que me separa do meu eu, do meu mais profundo eu, é a solidão que me acompanha até nos momentos em que estou acompanhada. Que contradição! Que ironia! De repente, tenho saudades. Saudades de mim! Saudades de nós! Tenho saudades…tantas! Tanta saudade que me dói! Mas saudades de quê? Saudades de mim e de outros tempos, de outras eras…quem sabe de outra vida em que não precisava de ver o mar para que tudo para mim fosse azul…Esta minha insatisfação, esta minha ausência de mim e de sabe Deus quem, quase me enlouquece. Quebra-me as pernas, como quem quebra um galho seco de uma árvore … Recomponho-me, porque assim o exigem de mim. Por mim, ficava aqui, calada, quieta e elevava a minha alma para outra dimensão. Para uma dimensão que só eu conheço e onde só outros, como eu, têm entrada. Como raio me hão-de perceber se, às vezes, nem eu me percebo? Acordo em desespero deste meu estado, porque é isso que esperam de mim. Por minha vontade, bastava-me o azul e uma música que me embalasse os sentimentos, as penas e as saudades que tenho de mim. E de sabe Deus quem… De repente, a casa povoa-se de gestos e sorrisos repetidos, estudados, sem qualquer naturalidade e eu, num desespero escondido, deixo-me ir ao sabor desta vida que, por vezes, não tem nada de azul. Desço à praia e, ora feliz, ora nem por isso, mas sempre digna do meu papel, acaricio o mar que me parece só meu. Só nosso! Passeio junto ao mar, para a minha habitual caminhada e, de repente, reparo que não oiço ninguém. Recomponho-me a tempo, para que não percebam o quão distante me encontro. Percebo que continuo na minha varanda, sozinha, com todo aquele azul estendido a meus pés. É lá que quero estar, sozinha ou nem por isso… Volto a casa saciada de azul. A noite chega…mansa. Da varanda, o azul é agora quase irreal…Tão irreal como a minha vida é às vezes. Tão irreal como sabe Deus quem… Despeço-me do dia com um abraço. Um abraço azul, que combina tão bem comigo e com tudo o que amo. A lua já cá está outra vez. Vê-se ao espelho no mar…As ondas são quase silenciosas, tão silenciosas como eu, quando estou sozinha, quando estou azul. E eu repito, baixinho, que quero ser feliz…

O PRIMEIRO BEIJO

Cada qual é para o que nasce e depois há os que, tal como eu, nascem e chegam a meio do percurso e ainda não perceberam nem por que é que nasceram nem para quê. Acreditem ou não, e não vale rir, já fui anjinho de procissão. A minha mãe sempre foi muito ligada à igreja e a tudo o que a ela dizia respeito e, por isso, lá fiz tudo o que a Santa Madre Igreja mandava e mais ainda o que a minha mãe achava que eu devia fazer. A verdade é que eu até gostava. Ia às missas, não se pode dizer por devoção, mas porque a minha mãe me dizia que quem não ia à missa ia direitinho para o Inferno, sem ter sequer hipótese de passar pelo purgatório, para apresentar reclamação. Para grande desgosto dela, só não tive entrada no coro, porque a minha voz não se parecia com nada. Bem que ela tentou subornar o ensaiador, oferecendo-lhe um borrego pela Páscoa e umas amêndoas de licor que eram a minha perdição mas, nada! - D. Lili, tenho muita pena, mas o Manel não pode ficar no coral. Deixe ver se, quando mudar a voz de pintainho para galaró, a coisa melhora e eu o consiga pôr aqui junto aos mais agudos… quem sabe! Para mim foi um sossego. Detestava aquelas cantorias e preferia mil vezes ficar cá em baixo ao pé da porta e aproveitar, enquanto a minha mãe fazia o peditório, para me escapar pela porta dos fundos e esfumaçar uma cigarrada com os mais velhos, que sabiam coisas que eu não sabia, mas que tinha muita pressa de aprender. A maior parte deles já namoriscava e já tinha roubado um ou dois beijos às miúdas, enquanto eu ainda só ensaiava esses beijos, de que eles tanto falavam, no espelho do meu guarda-fatos, enquanto a minha mãe rezava terço atrás de terço e o meu pai, que era um livre-pensador e um ateu convicto, lia e relia Marx e Gorki. Apesar dos meus 13 anos, não podia deixar de apreciar e me surpreender todos os dias com o casamento dos meus pais. As diferenças entre ambos eram tão gritantes e, no entanto, entrelaçadas por uma cumplicidade que eu não via nos pais dos meus melhores amigos. Nunca o meu pai teceu, pelo menos que eu ouvisse, um comentário com respeito à “ligação” que a minha mãe tinha com Cristo e jamais a minha mãe o criticou pela escolha das suas leituras todas viradas para o comunismo e que, na altura, eram castigadas com prisão, porque, nessa altura, tudo o que fugisse ao que era pré-estabelecido pelo regime e pela Igreja, simplesmente não prestava. Assim fui crescendo, entre “Deus é tudo e deus não existe”, sem realmente me preocupar muito se, quando morresse, iria para o céu ou se, morrendo, simplesmente acabava tudo. A verdade é que era um rapaz feliz, apenas com uma grande preocupação, quando raio é que eu ia arranjar uma namorada, para dar beijos de língua, conforme os meus amigos contavam e que depois, à noite, me tiravam o sono, porque não sabia se, chegada a altura, tinha realmente competência para deixar as meninas a suspirarem, como os meus amigos mais velhos deixavam. E assim, a pressa de crescer era tanta que, quando dei por mim, um dia, sem mais nem menos, vi-me apaixonado por uma menina linda de morrer e que eu tinha a certeza que jamais repararia num rapaz magro e escanzelado, com a cara cheia de borbulhas e com uma voz que nem era carne, nem era peixe. Aquela paixão consumia-me todos os dias, quando a via passar para o liceu que eu também frequentava, sempre sorridente e feliz e sem se dar ao trabalho de simplesmente olhar para mim. Eu era o rapaz mais infeliz do liceu. Nem os jogos da bola onde eu era craque me entusiasmavam. Eu só conseguia mesmo pensar naqueles olhos que nunca tinham olhado os meus e naquela boca sempre sorridente e pela qual eu mendigava por um sorriso. Eu só queria um sorriso… O meu pai, perspicaz como só ele, reparou que eu definhava de dia para dia, embora tentasse disfarçar, para não inquietar a minha mãe. E um dia, largou o livro que lia na altura, “A mãe”, de Gorki, que ele já tinha lido mais de 20 vezes, sem nunca se cansar e que sempre o surpreendia, como se o lesse pela primeira vez e disse-me: - Manel, temos de ter uma conversa de homem para homem. A minha mãe largou a novena que fazia na altura juntamente com a minha tia Carminho e mandou-me um olhar derretidinho de carinho que me fez corar até à raiz dos cabelos. Mau, pensei, querem ver que já todos sabem que estou apaixonado pela Maria Leonor? A Maria Leonor era afilhada de uma amiga da minha mãe e já lá tinha estado em casa, mas, nessa altura, eu ainda só queria era jogar às caricas e fazer corridas com os carrinhos. Ou seja, era uma criança. Agora era um “homem” de 14 anos, completamente consumido pelo bichinho do amor. Mas voltemos ao momento em que meu pai largou o livro e a minha mãe me lambeu com um sorriso doce… - Diga, pai. – respondi a medo. A minha mãe, adivinhando a conversa que lá vinha e consciente de que era uma conversa entre homens, saiu da sala com a minha tia, a pretexto de irem regar as flores e deixaram-me a mim, indefeso e apaixonado, com o meu pai, livre-pensador e sábio. - Então, filho, não me queres dizer o porquê dessa tristeza? Problema com as notas não é, porque sei que continuas a ser bom aluno e cumpridor. Triste por não estares no coral da igreja, também não, porque sei perfeitamente que desafinas de propósito, para não seres aceite… Olhei o meu pai, surpreso. Era mesmo sábio. E continuou: - Ou pensas que não te oiço cantar no teu quarto, afinadinho e quase tão bem como o Paulo de Carvalho e o Fernando Tordo? Por isso, só pode ser mal de amor. Sei muito bem o que isso é e sei que dói que se farta, quando não se é correspondido. É uma dor que só mesmo Camões soube descrever… Quem é ela? Anda, diz lá, que eu não digo nada à tua mãe. É que ela é que me alertou… Pensas que ela só pensa em rezas? Enganas-te. Está sempre alerta. Não lhe escapa nada. É o nosso anjo da guarda… - Então, mas o pai acredita em anjos? - Acredito que todos neste mundo, que é o único que existe, todas as pessoas que olham por nós, que nos querem bem e nos mostram sensatamente os caminhos que devemos seguir, são nossos anjos da guarda e a tua mãe é o nosso anjo mais fiel e atento. Concordei com o meu pai. A minha mãe era o nosso anjo e não aquele que tinha asas e que ela tinha posto sobre a minha cama para zelar por mim. - É a Maria Leonor, afilhada da tia Carminho. Ela é tão linda, pai! Mas não me liga nenhuma. Passa por mim e nem me vê… - Tens a certeza de que não te vê? Abanei a cabeça, tristemente e em gesto afirmativo. - Pois olha, não é isso que a tua tia Carminho disse à tua mãe!… Os meus olhos abriram-se de espanto e encheu-se-me o meu coração de uma coisa da qual eu nem sei o nome. Fiquei à espera que o meu pai continuasse. - É que ela queixou-se à mãe dela que ficava sempre à espera que tu a cumprimentasses, mas que, sempre que passas por ela, baixas a cabeça e não dizes nada. Não percebes nada de mulheres e eu, meu rapaz, também não sou grande entendido, porque as mulheres, quando as entendemos, perdem toda a graça. Não há dúvida de que o meu pai é um homem sábio. Naquela altura, tive a certeza. No dia seguinte, vesti a minha melhor camisa aos quadradinhos azuis, enchi-me do perfume “Brut” do meu pai e fiz-me mais cedo ao caminho. Queria chegar ao liceu cedinho, para a ver chegar. E ela chegou, com uma mini-saia às pregas e uma camisa também azul e eu achei que aquela sintonia de cores era um sinal. E enchi-me de coragem. E corei. E perdi a força nas pernas. E disse-lhe com voz de galaró, quando ela ia a passar com as amigas: - Olá, Maria Leonor. E ela ficou para trás. E corou. E pôs o cabelo para trás da orelha. E disse-me com voz de rebuçado: - Olá, Manel. Nessa tarde, levei-a até ao portão de casa, de mão dada e trocámos o primeiro beijo, que foi tão bom que eu não consigo descrever!… Nessa noite, voltei a não dormir bem. Mas a causa era outra. Nessa noite, não dormi, porque não queria perder o sabor da Maria Leonor, que continuava na minha boca. Tinha medo de adormecer e de o perder… Mas não perdi. Passaram vinte anos. A Maria Leonor, que enquanto eu escrevo mais estas páginas no meu diário, dorme atravessada na nossa cama, está ali, inteira, só minha, para que eu possa recordar esse sabor do primeiro beijo, sempre que me apetecer. Grandes lições eu aprendi com o livre-pensador que era o meu pai e a santa da minha mãe, que foi sempre nosso anjo da guarda. Ah… ia-me esquecendo: eu e a Maria Leonor, depois do nosso beijo, ingressámos no coral da igreja. A alegria foi tanta que comecei a cantar bem! Continuo sem saber muito bem para que nasci, mas, provavelmente, foi para ser filho de quem fui e roubar o primeiro beijo à mulher da minha vida.