AZUL
Postado por: Sônia Naranjo - quarta-feira, 23 de maio de 2012
É quase invisível a linha que divide o mar do céu.Tenho mesmo de me esforçar para a conseguir distinguir. Todos os dias, durante as férias, sou acordada por esta sinfonia de azuis. E como eu gosto de azul!
Depois do sentido da visão, de uma visão azul, sou invadida pelo barulho das ondas, quando se desfazem no areal, ora mansas, ora revoltadas e perfumadas de maresia… E só aí acordo realmente…
Aproveito o silêncio da casa, porque toda a gente ainda dorme e corro à varanda, que é o meu sítio de eleição. E aí, perante aquele manto que me encanta e apaixona, repito baixinho que sou quase feliz… Quem não o é, perante um cenário destes?!
Estendo-me na espreguiçadeira e noto que a lua ainda não se despediu…Até ela tem pena de deixar tamanha beleza. Lá em baixo, na rua, ainda reina o silêncio. Óptimo!
Umas quantas gaivotas voam, vindas do mar. Uma, mais corajosa, empoleira-se na minha varanda, a poucos metros de mim. Que inveja! Além de ter asas, vive junto ao mar! Tenho alguma dificuldade em não levantar voo e partir, sabe Deus para onde…
Numa tentativa falhada, agarro o livro que me acompanha há dias e tento ler pela milésima vez o mesmo parágrafo. Mais uma vez desfaço o meu olhar naquele azul que me afaga a alma e me apura os sentidos e os sentimentos mais profundos e secretos. A sensação é quase mágica. Tão mágica como algumas palavras, porque há magia nas palavras! Uma noite qualquer destas, aqui há uns tempos, escrevi um poema, que me perdoem os poetas a minha imodéstia, onde eu dizia que as palavras podem ser azuis como o mar, quando amanhece quedo… e que podem ou não ter perdão. Há realmente palavras assim, azuis, quedas e cheias de sobressaltos.
Volto a largar o livro, para apreciar o despedir da lua quando o sol aparece ainda envergonhado, quase a sentir-se culpado por impor a sua presença. Finalmente, distingo a linha do horizonte que separa os dois azuis e, ao longe, avisto um bando de gaivotas, que risca o céu de cinzento e branco.
Inebriada com a paisagem, esqueço o livro e as palavras que ele aprisiona e enrolo mais uma vez o meu olhar numa onda. E, neste momento, repito baixinho que sou quase infeliz… Num exame rápido de consciência, abenço e maldigo a minha vida. O meu tanto é tão pouco! Por que raio hei-de eu ser assim?
Os primeiros barulhos da casa incomodam-me. Preciso de mais tempo para mim…Fecho a portada e isolo-me mais um pouco. Quem sabe se não se esquecem de mim mais um tempo e me deixam ir ao sabor das ondas!
A casa volta a mergulhar no silêncio e a única coisa que me separa do meu eu, do meu mais profundo eu, é a solidão que me acompanha até nos momentos em que estou acompanhada. Que contradição! Que ironia!
De repente, tenho saudades. Saudades de mim! Saudades de nós! Tenho saudades…tantas! Tanta saudade que me dói! Mas saudades de quê? Saudades de mim e de outros tempos, de outras eras…quem sabe de outra vida em que não precisava de ver o mar para que tudo para mim fosse azul…Esta minha insatisfação, esta minha ausência de mim e de sabe Deus quem, quase me enlouquece. Quebra-me as pernas, como quem quebra um galho seco de uma árvore …
Recomponho-me, porque assim o exigem de mim. Por mim, ficava aqui, calada, quieta e elevava a minha alma para outra dimensão. Para uma dimensão que só eu conheço e onde só outros, como eu, têm entrada. Como raio me hão-de perceber se, às vezes, nem eu me percebo?
Acordo em desespero deste meu estado, porque é isso que esperam de mim. Por minha vontade, bastava-me o azul e uma música que me embalasse os sentimentos, as penas e as saudades que tenho de mim. E de sabe Deus quem…
De repente, a casa povoa-se de gestos e sorrisos repetidos, estudados, sem qualquer naturalidade e eu, num desespero escondido, deixo-me ir ao sabor desta vida que, por vezes, não tem nada de azul.
Desço à praia e, ora feliz, ora nem por isso, mas sempre digna do meu papel, acaricio o mar que me parece só meu. Só nosso! Passeio junto ao mar, para a minha habitual caminhada e, de repente, reparo que não oiço ninguém. Recomponho-me a tempo, para que não percebam o quão distante me encontro. Percebo que continuo na minha varanda, sozinha, com todo aquele azul estendido a meus pés. É lá que quero estar, sozinha ou nem por isso…
Volto a casa saciada de azul.
A noite chega…mansa. Da varanda, o azul é agora quase irreal…Tão irreal como a minha vida é às vezes. Tão irreal como sabe Deus quem…
Despeço-me do dia com um abraço. Um abraço azul, que combina tão bem comigo e com tudo o que amo.
A lua já cá está outra vez. Vê-se ao espelho no mar…As ondas são quase silenciosas, tão silenciosas como eu, quando estou sozinha, quando estou azul. E eu repito, baixinho, que quero ser feliz…
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