Centro comercial da cidade... Uma cidade qualquer do Sudeste brasileiro. A rua está escura. Um poste municipal. Uma lâmpada de luz tênue pisca avisando que está perto de apagar... A hora de o mundo acordar se aproxima. Uma neblina rústica passa por ali. Estrelas cansadas, que deram turno, começam a se retirar. A maior de todas, o sol, avisa: ficarei, sozinho. Solzinho, por enquanto. Aproxima-se. Veste uma roupa esfuziantemente amarela. A roupa é raiada e esparge calor. A temperatura, muito fria, ouve o aviso do sol e rebate: eu também continuarei por aqui, está cedo para sair. 12 graus: sensação térmica pela metade.

Um cachorro, um cão sem dono, cachorro de rua, esquálido porem liberto da escravidão que lhe fora antes imposta, late... Late sem motivo, sem razão aparente. Late, porque latir, agora que está livre das regras sociais, é seu oficio, é seu objetivo de vida, é sua arte, sua ciência... Passeia, fuça aqui e acolá. Incomoda? Não, ninguém por ali se incomoda com nada. Absolutamente nada. Moscas despertam. São moscas limpas, não são porcas. Asseiam-se: lambem as asas e o corpo com suas línguas felpudas. Alguém já viu a língua da mosca? É pegajosa, pega coisas no ar. Fluente. As moscas fazem cooper, se exercitam, se aprimoram, são saradas. Depois, voláteis, levantam voo, umas para alhures, outras, ali mesmo, para fazer a primeira refeição do dia, o café da manhã. O dia será de muito trabalho para todas. A sociedade urbana trata as moscas muito bem. Elas são gratas. Devolvem os mimos com o que tem de melhor: larvas. Um rato de esgoto passa apressado: está atrasado. Nas cidades grandes os ratos são sempre apressados. Stress total. Não falam com ninguém: apenas dão pequemos gritinhos, grunhidos. O cenário de uma nova manhã se forma. Barulhos, de carro, de máquinas, de passantes, de ficantes, barulhos distantes, próximos, já se fazem ouvir. A cada minuto mais. Cheiros, ah! Os cheiros: São falsos, desleais. Primeiro vão se chegando, como se não quisessem nada, depois, vão ficando, se impondo, penetrando nas narinas atraentes que encontram pelo caminho, e vão permanecendo, iludindo seus hospedeiros. Parecem de pipoca ou de churrasco de picanha. No fim, são de urina passada, abandonada impiedosamente no pé do muro, na esquina. Por falar em muro, em pé de muro, é ali que se passa a nossa historia. Três pedaços de papelão: um que fora caixa de refrigerador, um de fogão, um de televisor (Samsung LN26D450 LCD Plana 26 Polegadas). Coisa boa, de primeira. É provável que seus respectivos conteúdos estejam sendo gastados na casa de um operário que ajudou a produzi-los e induzido pelo aumento da massa salarial no país seja agora um feliz integrante da sociedade de consumo. O poder aquisitivo realmente aumentou para uns.
Ao lado dos papelões, roupas. Roupas que foram roupas um dia: agora, envelhecidas, decrepitas, rasgadas, encarquilhadas, são apenas andrajos. Ainda dormem. Roupas dormem quando não são vestidas. Latas. Latas. Mais latas. Uma de leite guarda pó de café. Uma de café guarda um pouco de açúcar, já sem doçura. Como ser doce numa situação dessas? Uma de açúcar guarda farinha de mandioca. Parece o poema de Drummond (João amava Teresa que amava Raimundo que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili que não amava ninguém. João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento, Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia, Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes que não tinha entrado na história). Uma casca de banana. Um pão com manteiga rançosa fica se prostituindo, se oferecendo, pedindo para ser comido, ou pelo menos mordido. E nada, ninguém que se aventure. Nem o cachorro baldio. Nem as moscas. Triste destino das prostitutas velhas, a boca com resto de batom, o rosto estriado coberto de pó de arroz, ruge, rouge, maquiagens que não lhe cobrem mais o abandono. Prostitutas e pães velhos são descartáveis... Um cachimbo de crack, duas pedras, 5 papelotes de maconha. Estão ali, no pé do muro, encostados, esperando para ser usados. Quanto tempo vão esperar? Pouco, embora drogas sejam seres pacientes, teimosos, vaidosos, que sabem do seu valor. Ficam por ali, paradinhos, desconfiados. Mas, não estão sós: uma caneca tem um pouco de cachaça e pedaços de cigarros de marca barata também estão no aguardo. Não são carentes: sabem que a sua vez chegará, com carinho, com afeto. Os vícios são profundamente amorosos, insinuantes.
O papelão do refrigerador levanta: Zé, somente Zé, que não recorda o sobrenome, passa as mãos nos olhos vermelhos e remelados. O sol das cinco horas já incomoda. Gosta da noite. É um vampiro das cidades, só que bebe o próprio sangue. Levanta com dificuldade. Vai até o poste, que agora já teve a lâmpada apagada pela Prefeitura, sempre preocupada com o custo operacional da iluminação pública. Urina. Suas calças, atrás, estão sujas de fezes, manchadas, de resquícios das fezes defecadas na madrugada. Para um momento. Olha para cima, por cima dos prédios cinzentos e carcomidos pelo tempo, e pensa, num relance de pensamento, rápido, porque lhe resta muito pouco tempo para pensar. Pensa: as fezes não me incomodam. Eu é que incomodo as fezes, porque sou pior que elas. Num rasgo de inteligência ele se consegue definir: sou o excremento, a borra da sociedade. É isso mesmo, está certo. A sociedade dejeta aquilo que não lhe interessa mais, e Zé é antes de tudo um homem desinteressante. O outro papelão, o menor, faz menção de levantar: algo se mexe debaixo dele. Uma criança, alguns meses de idade. Uma flor, uma florzinha naquele perverso jardim de ervas daninhas, naquele jardim de maconha. Ela chora, o primeiro choramingo do dia. Sem lágrimas, que lágrima é coisa de criança rica. Chora como o cachorro inútil late ali por perto. Chora porque não fala, só sabe chorar. Também, se falasse que serventia teria? Zé não iria entender, a sociedade é surda, deficiente auditiva, o cachorro late... Seu choro acorda o terceiro papelão. O papelão médio, o do fogão. Pedaços de ossos cobertos por pelancas, a magreza mais magra que um ser humano pode manter, magreza de campo de concentração, abre os olhos circundados por olheiras negras. Os olhos não são espertos nem despertos. São semicerrados, doentes, dormentes. Indormidos. Não se conformam em ver. O que ver? As dores do mundo, miséria? É melhor, muito melhor, continuar dormindo. Aí, começam os entretantos...
Entretanto, no meio dos ossos e das pelancas existem peitos. Caídos, veias azuis, entumecidos e doloridos. Entretanto, com leite. Leite de crack, de cocaína, de lixo, de cachaça fedorenta. Entretanto, leite! Maria, ela se chamava Maria, como a mãe de Cristo. Maria de que? Maria, do crack. Maria, levanta um pouco, se vira de lado, e com os braços finos, ossos e pelancas, num esforço enorme, levanta seu Cristinho choroso, puxa-o para si, coloca-o ternamente no desconforto de seus ossos com pelancas em posição de mamar, pega o arremedo de peito, corajosamente, e o coloca na boquinha que chora. A boquinha para de chorar, imediatamente, e mama... Mama na mama da Mama! 5,00 horas da manhã... 12 de maio de 2012. Dia das mães! Centro comercial da cidade... Uma cidade qualquer do Sudeste brasileiro. A rua está mais clara. Clara demais. Tão clara que permite ver o dia da mãe, da mãe de um cristinho. Da mãe que se doa em tudo o que tem, o que lhe resta: um peito, um arremedo de peito com gotas de leite. Zé olha por cima dos prédios. O cachorro sem dono late. Os ratos passam apressados. As moscas se exercitam. E a vida continua...



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