Estou a ouvir a canção do Erasmo Carlos, “A Carta”. É uma canção dos anos sessenta ou setenta, não sei bem, mas sei a letra de cor e salteado, toquei-a e cantei-a inúmeras vezes, e há tanto tempo que não a ouvia. Estou a ouvir… comecei eu por dizer, e apeteceu-me escrever uma carta também. Depois pensei «mas eu já escrevi tantas, estou sempre a escrever cartas. Bem sei que lhes dou outro nome, nalgumas até me coloco na pele doutro, digo que encontrei uma folha escrita aqui, um caderno ali, peço palavras emprestadas, etc., etc.» Admitamos que vou escrever uma carta. Quando se escreve algo, esse algo tem de ser lido, não serve apenas para preencher páginas e mais páginas. Para ser uma carta, esta tem de ter endereço, uma morada, alguém a quem a enviar. Vamos partir do princípio que até existe alguém, alguém que sem o ser, é e foi antes de mais alguém de quem gostei e ainda gosto, alguém que nem eu próprio sei se é imaginário. Mas como posso eu escrever a alguém que pode ser imaginário, que nunca me pertenceu nem pertencerá? A não ser que esse alguém me dê um motivo para lhe escrever. Escrevo tanto e no entanto parece-me que não passo dum artista que actua a solo. Precisava dum motivo e tu deste-me esse motivo quando me disseste “…estou tranquilamente a soltar-me de ti…queria contar-te como me sinto mas não consigo… eu vivo-te como só eu sei”. Vês? Já tenho um motivo para escrever a tal carta, talvez seja uma carta como a que diz a canção de Roberto Carlos e Erasmo Carlos, uma que perdure no tempo e faça salgar os olhos sempre que for lida. Se soubesses a vontade que tenho de te dar um abraço. Ah! O que um abraço podia fazer!
Transporto-me ao sabor das horas, dos minutos, dos segundos que vão chegando e que cada vez passam mais urgentes. Estou a lembrar-me daqueles empregados – eram uns quatro ou cinco, não eram? – que nos acompanharam até à mesa junto do vidro grande que deixava ver todo o mar. Eu já escrevi tanto sobre o mar e sobre esse momento. Pensei que ficaríamos juntos para sempre e agora dizes “…estou tranquilamente a soltar-me de ti…queria contar-te como me sinto mas não consigo… eu vivo-te como só eu sei”. As vezes que leio esta frase… há nela contradições de pensamento, mas é tua, não lhe toco, não a quero desvirtuar.
Deixo-me levar na espuma da corrente como se dela sempre fizesse parte, sim, deixo-me levar na insustentável inércia das marés que me desinquieta e convida. Se entrar pelo mar adentro não tenho de me preocupar com as linhas da carta, na água há ausência de traços e abecedário, as letras são construídas com imagens invisíveis mas sinto nelas a tua cor e o cheiro do teu amor. Vê lá como ando que até digo que o amor tem cheiro, se calhar é azul como as águas, aqui tudo pode acontecer, aqui, até o silêncio se aproxima mais da quietude do céu. Gosto tanto de ti. Ah, como gosto de ti!
Há um sentido subjacente em tudo quanto escrevo, porque algures alguém me há-de ler. É gratificante saber que, sem me conhecer, esse alguém me leu, me sentiu, partilhou comigo o sentimento que transporto. E olho novamente a frase: “…estou tranquilamente a soltar-me de ti…queria contar-te como me sinto mas não consigo… eu vivo-te como só eu sei”.
A canção do Erasmo Carlos chegou ao fim e eu vou também terminar esta carta. Adeus.

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