POEMA OCTOGÉSIMO PRIMEIRO

















Esvoaço sobre o poema
como o pardal sobre os ombros da seara.
Releio-me.
Procuro no meu texto outras verdades: é tua
a minha vida ainda que o não saibas, tua e dos meus
amigos e das minhas palavras.
A minha vida é um livro, cada página
está preenchida com amores e canções, poemas
onde a minha voz lavra a terra e cumprimenta os pássaros
e fala baixinho com os casulos da sombra e as borboletas
da luz. O meu amor está também no caminho que percorro,
na queixa deste planeta que tenho sob os pés,
o meu amor é imortal, é um archote que ilumina a carne,
que oferece ao meu sangue e aos meus ossos
uma alegria capaz de todos os afectos.
Acordo nos teus gestos, espreguiço-me
na cama das palavras onde nasce o amor, onde nasce
a ternura, onde nascem os filhos. Vou lavar
os olhos com o teu olhar, sorrir com o teu sorriso,
fazer perguntas a mim mesmo.
Tudo me pede que cante,
tudo me diz para cantar. E eu continuo
a interrogar-me, enquanto me dispo, enquanto
escrevo
o que o texto me pede.

(De GUARDAR O FOGO, a publicar) 

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