AZUL

É quase invisível a linha que divide o mar do céu.Tenho mesmo de me esforçar para a conseguir distinguir. Todos os dias, durante as férias, sou acordada por esta sinfonia de azuis. E como eu gosto de azul! Depois do sentido da visão, de uma visão azul, sou invadida pelo barulho das ondas, quando se desfazem no areal, ora mansas, ora revoltadas e perfumadas de maresia… E só aí acordo realmente… Aproveito o silêncio da casa, porque toda a gente ainda dorme e corro à varanda, que é o meu sítio de eleição. E aí, perante aquele manto que me encanta e apaixona, repito baixinho que sou quase feliz… Quem não o é, perante um cenário destes?! Estendo-me na espreguiçadeira e noto que a lua ainda não se despediu…Até ela tem pena de deixar tamanha beleza. Lá em baixo, na rua, ainda reina o silêncio. Óptimo! Umas quantas gaivotas voam, vindas do mar. Uma, mais corajosa, empoleira-se na minha varanda, a poucos metros de mim. Que inveja! Além de ter asas, vive junto ao mar! Tenho alguma dificuldade em não levantar voo e partir, sabe Deus para onde… Numa tentativa falhada, agarro o livro que me acompanha há dias e tento ler pela milésima vez o mesmo parágrafo. Mais uma vez desfaço o meu olhar naquele azul que me afaga a alma e me apura os sentidos e os sentimentos mais profundos e secretos. A sensação é quase mágica. Tão mágica como algumas palavras, porque há magia nas palavras! Uma noite qualquer destas, aqui há uns tempos, escrevi um poema, que me perdoem os poetas a minha imodéstia, onde eu dizia que as palavras podem ser azuis como o mar, quando amanhece quedo… e que podem ou não ter perdão. Há realmente palavras assim, azuis, quedas e cheias de sobressaltos. Volto a largar o livro, para apreciar o despedir da lua quando o sol aparece ainda envergonhado, quase a sentir-se culpado por impor a sua presença. Finalmente, distingo a linha do horizonte que separa os dois azuis e, ao longe, avisto um bando de gaivotas, que risca o céu de cinzento e branco. Inebriada com a paisagem, esqueço o livro e as palavras que ele aprisiona e enrolo mais uma vez o meu olhar numa onda. E, neste momento, repito baixinho que sou quase infeliz… Num exame rápido de consciência, abenço e maldigo a minha vida. O meu tanto é tão pouco! Por que raio hei-de eu ser assim? Os primeiros barulhos da casa incomodam-me. Preciso de mais tempo para mim…Fecho a portada e isolo-me mais um pouco. Quem sabe se não se esquecem de mim mais um tempo e me deixam ir ao sabor das ondas! A casa volta a mergulhar no silêncio e a única coisa que me separa do meu eu, do meu mais profundo eu, é a solidão que me acompanha até nos momentos em que estou acompanhada. Que contradição! Que ironia! De repente, tenho saudades. Saudades de mim! Saudades de nós! Tenho saudades…tantas! Tanta saudade que me dói! Mas saudades de quê? Saudades de mim e de outros tempos, de outras eras…quem sabe de outra vida em que não precisava de ver o mar para que tudo para mim fosse azul…Esta minha insatisfação, esta minha ausência de mim e de sabe Deus quem, quase me enlouquece. Quebra-me as pernas, como quem quebra um galho seco de uma árvore … Recomponho-me, porque assim o exigem de mim. Por mim, ficava aqui, calada, quieta e elevava a minha alma para outra dimensão. Para uma dimensão que só eu conheço e onde só outros, como eu, têm entrada. Como raio me hão-de perceber se, às vezes, nem eu me percebo? Acordo em desespero deste meu estado, porque é isso que esperam de mim. Por minha vontade, bastava-me o azul e uma música que me embalasse os sentimentos, as penas e as saudades que tenho de mim. E de sabe Deus quem… De repente, a casa povoa-se de gestos e sorrisos repetidos, estudados, sem qualquer naturalidade e eu, num desespero escondido, deixo-me ir ao sabor desta vida que, por vezes, não tem nada de azul. Desço à praia e, ora feliz, ora nem por isso, mas sempre digna do meu papel, acaricio o mar que me parece só meu. Só nosso! Passeio junto ao mar, para a minha habitual caminhada e, de repente, reparo que não oiço ninguém. Recomponho-me a tempo, para que não percebam o quão distante me encontro. Percebo que continuo na minha varanda, sozinha, com todo aquele azul estendido a meus pés. É lá que quero estar, sozinha ou nem por isso… Volto a casa saciada de azul. A noite chega…mansa. Da varanda, o azul é agora quase irreal…Tão irreal como a minha vida é às vezes. Tão irreal como sabe Deus quem… Despeço-me do dia com um abraço. Um abraço azul, que combina tão bem comigo e com tudo o que amo. A lua já cá está outra vez. Vê-se ao espelho no mar…As ondas são quase silenciosas, tão silenciosas como eu, quando estou sozinha, quando estou azul. E eu repito, baixinho, que quero ser feliz…

O PRIMEIRO BEIJO

Cada qual é para o que nasce e depois há os que, tal como eu, nascem e chegam a meio do percurso e ainda não perceberam nem por que é que nasceram nem para quê. Acreditem ou não, e não vale rir, já fui anjinho de procissão. A minha mãe sempre foi muito ligada à igreja e a tudo o que a ela dizia respeito e, por isso, lá fiz tudo o que a Santa Madre Igreja mandava e mais ainda o que a minha mãe achava que eu devia fazer. A verdade é que eu até gostava. Ia às missas, não se pode dizer por devoção, mas porque a minha mãe me dizia que quem não ia à missa ia direitinho para o Inferno, sem ter sequer hipótese de passar pelo purgatório, para apresentar reclamação. Para grande desgosto dela, só não tive entrada no coro, porque a minha voz não se parecia com nada. Bem que ela tentou subornar o ensaiador, oferecendo-lhe um borrego pela Páscoa e umas amêndoas de licor que eram a minha perdição mas, nada! - D. Lili, tenho muita pena, mas o Manel não pode ficar no coral. Deixe ver se, quando mudar a voz de pintainho para galaró, a coisa melhora e eu o consiga pôr aqui junto aos mais agudos… quem sabe! Para mim foi um sossego. Detestava aquelas cantorias e preferia mil vezes ficar cá em baixo ao pé da porta e aproveitar, enquanto a minha mãe fazia o peditório, para me escapar pela porta dos fundos e esfumaçar uma cigarrada com os mais velhos, que sabiam coisas que eu não sabia, mas que tinha muita pressa de aprender. A maior parte deles já namoriscava e já tinha roubado um ou dois beijos às miúdas, enquanto eu ainda só ensaiava esses beijos, de que eles tanto falavam, no espelho do meu guarda-fatos, enquanto a minha mãe rezava terço atrás de terço e o meu pai, que era um livre-pensador e um ateu convicto, lia e relia Marx e Gorki. Apesar dos meus 13 anos, não podia deixar de apreciar e me surpreender todos os dias com o casamento dos meus pais. As diferenças entre ambos eram tão gritantes e, no entanto, entrelaçadas por uma cumplicidade que eu não via nos pais dos meus melhores amigos. Nunca o meu pai teceu, pelo menos que eu ouvisse, um comentário com respeito à “ligação” que a minha mãe tinha com Cristo e jamais a minha mãe o criticou pela escolha das suas leituras todas viradas para o comunismo e que, na altura, eram castigadas com prisão, porque, nessa altura, tudo o que fugisse ao que era pré-estabelecido pelo regime e pela Igreja, simplesmente não prestava. Assim fui crescendo, entre “Deus é tudo e deus não existe”, sem realmente me preocupar muito se, quando morresse, iria para o céu ou se, morrendo, simplesmente acabava tudo. A verdade é que era um rapaz feliz, apenas com uma grande preocupação, quando raio é que eu ia arranjar uma namorada, para dar beijos de língua, conforme os meus amigos contavam e que depois, à noite, me tiravam o sono, porque não sabia se, chegada a altura, tinha realmente competência para deixar as meninas a suspirarem, como os meus amigos mais velhos deixavam. E assim, a pressa de crescer era tanta que, quando dei por mim, um dia, sem mais nem menos, vi-me apaixonado por uma menina linda de morrer e que eu tinha a certeza que jamais repararia num rapaz magro e escanzelado, com a cara cheia de borbulhas e com uma voz que nem era carne, nem era peixe. Aquela paixão consumia-me todos os dias, quando a via passar para o liceu que eu também frequentava, sempre sorridente e feliz e sem se dar ao trabalho de simplesmente olhar para mim. Eu era o rapaz mais infeliz do liceu. Nem os jogos da bola onde eu era craque me entusiasmavam. Eu só conseguia mesmo pensar naqueles olhos que nunca tinham olhado os meus e naquela boca sempre sorridente e pela qual eu mendigava por um sorriso. Eu só queria um sorriso… O meu pai, perspicaz como só ele, reparou que eu definhava de dia para dia, embora tentasse disfarçar, para não inquietar a minha mãe. E um dia, largou o livro que lia na altura, “A mãe”, de Gorki, que ele já tinha lido mais de 20 vezes, sem nunca se cansar e que sempre o surpreendia, como se o lesse pela primeira vez e disse-me: - Manel, temos de ter uma conversa de homem para homem. A minha mãe largou a novena que fazia na altura juntamente com a minha tia Carminho e mandou-me um olhar derretidinho de carinho que me fez corar até à raiz dos cabelos. Mau, pensei, querem ver que já todos sabem que estou apaixonado pela Maria Leonor? A Maria Leonor era afilhada de uma amiga da minha mãe e já lá tinha estado em casa, mas, nessa altura, eu ainda só queria era jogar às caricas e fazer corridas com os carrinhos. Ou seja, era uma criança. Agora era um “homem” de 14 anos, completamente consumido pelo bichinho do amor. Mas voltemos ao momento em que meu pai largou o livro e a minha mãe me lambeu com um sorriso doce… - Diga, pai. – respondi a medo. A minha mãe, adivinhando a conversa que lá vinha e consciente de que era uma conversa entre homens, saiu da sala com a minha tia, a pretexto de irem regar as flores e deixaram-me a mim, indefeso e apaixonado, com o meu pai, livre-pensador e sábio. - Então, filho, não me queres dizer o porquê dessa tristeza? Problema com as notas não é, porque sei que continuas a ser bom aluno e cumpridor. Triste por não estares no coral da igreja, também não, porque sei perfeitamente que desafinas de propósito, para não seres aceite… Olhei o meu pai, surpreso. Era mesmo sábio. E continuou: - Ou pensas que não te oiço cantar no teu quarto, afinadinho e quase tão bem como o Paulo de Carvalho e o Fernando Tordo? Por isso, só pode ser mal de amor. Sei muito bem o que isso é e sei que dói que se farta, quando não se é correspondido. É uma dor que só mesmo Camões soube descrever… Quem é ela? Anda, diz lá, que eu não digo nada à tua mãe. É que ela é que me alertou… Pensas que ela só pensa em rezas? Enganas-te. Está sempre alerta. Não lhe escapa nada. É o nosso anjo da guarda… - Então, mas o pai acredita em anjos? - Acredito que todos neste mundo, que é o único que existe, todas as pessoas que olham por nós, que nos querem bem e nos mostram sensatamente os caminhos que devemos seguir, são nossos anjos da guarda e a tua mãe é o nosso anjo mais fiel e atento. Concordei com o meu pai. A minha mãe era o nosso anjo e não aquele que tinha asas e que ela tinha posto sobre a minha cama para zelar por mim. - É a Maria Leonor, afilhada da tia Carminho. Ela é tão linda, pai! Mas não me liga nenhuma. Passa por mim e nem me vê… - Tens a certeza de que não te vê? Abanei a cabeça, tristemente e em gesto afirmativo. - Pois olha, não é isso que a tua tia Carminho disse à tua mãe!… Os meus olhos abriram-se de espanto e encheu-se-me o meu coração de uma coisa da qual eu nem sei o nome. Fiquei à espera que o meu pai continuasse. - É que ela queixou-se à mãe dela que ficava sempre à espera que tu a cumprimentasses, mas que, sempre que passas por ela, baixas a cabeça e não dizes nada. Não percebes nada de mulheres e eu, meu rapaz, também não sou grande entendido, porque as mulheres, quando as entendemos, perdem toda a graça. Não há dúvida de que o meu pai é um homem sábio. Naquela altura, tive a certeza. No dia seguinte, vesti a minha melhor camisa aos quadradinhos azuis, enchi-me do perfume “Brut” do meu pai e fiz-me mais cedo ao caminho. Queria chegar ao liceu cedinho, para a ver chegar. E ela chegou, com uma mini-saia às pregas e uma camisa também azul e eu achei que aquela sintonia de cores era um sinal. E enchi-me de coragem. E corei. E perdi a força nas pernas. E disse-lhe com voz de galaró, quando ela ia a passar com as amigas: - Olá, Maria Leonor. E ela ficou para trás. E corou. E pôs o cabelo para trás da orelha. E disse-me com voz de rebuçado: - Olá, Manel. Nessa tarde, levei-a até ao portão de casa, de mão dada e trocámos o primeiro beijo, que foi tão bom que eu não consigo descrever!… Nessa noite, voltei a não dormir bem. Mas a causa era outra. Nessa noite, não dormi, porque não queria perder o sabor da Maria Leonor, que continuava na minha boca. Tinha medo de adormecer e de o perder… Mas não perdi. Passaram vinte anos. A Maria Leonor, que enquanto eu escrevo mais estas páginas no meu diário, dorme atravessada na nossa cama, está ali, inteira, só minha, para que eu possa recordar esse sabor do primeiro beijo, sempre que me apetecer. Grandes lições eu aprendi com o livre-pensador que era o meu pai e a santa da minha mãe, que foi sempre nosso anjo da guarda. Ah… ia-me esquecendo: eu e a Maria Leonor, depois do nosso beijo, ingressámos no coral da igreja. A alegria foi tanta que comecei a cantar bem! Continuo sem saber muito bem para que nasci, mas, provavelmente, foi para ser filho de quem fui e roubar o primeiro beijo à mulher da minha vida.

VIDA DE CÃO

Morreu ali. Sozinho, de olhar vazio, perdido no céu, que já escurecia. Sempre pedira a Deus para que quando chegasse a sua hora, tivesse uma mão a segurar a sua. Nem que fosse a mão de um desconhecido… Mas não. Tinha morrido sozinho. Só o cão, que há mais de um ano o acompanhava pelas ruas, enquanto pedia esmola, permanecia a seu lado. O olhar triste e humedecido do cão a quem tinha posto o nome de Anjo, por ser todo branco e por o ter socorrido, num dia em que era perseguido por um grupo de rapazes que o apedrejavam, tendo-se atirado a eles. Aquele foi o seu mais fiel amigo. Com ele dividia a fome, o frio e até as saudades de tempos idos e em que tinha sido feliz, sem o saber e sem sequer dar valor a essa felicidade. Enquanto o seu corpo se apagava no frio da noite, como a chama de uma vela, à qual faltava o oxigénio para poder brilhar, lembrava a sua vida e parecia-lhe que não era sua. Apenas um filme do qual tinha sido mero espectador. O “Anjo”, chegou-se a ele como que adivinhado o frio que lhe percorria o corpo e lambeu-lhe a mão, em sinal de gratidão eterna. Aquele tinha sido o melhor dono que tinha tido, ou melhor dizendo, o único, porque cedo se viu abandonado por um dono que sempre o mal tratou, acabando por o abandonar numa estrada deserta, num dia de Inverno em que chovia e em que o frio lhe trespassava o pelo, indo alojar-se nos seus ossos ainda tão tenros. Comia o que podia, lixo principalmente, e algumas coisas que roubava aqui e ali porque a fome era muita. Mas o pior de tudo, era a sede, quando o sol caia a pique e ele não tinha onde se abrigar. Se ele ao menos morresse… Assim pensava o homem que estava deitado no passeio, ignorado pelos transeuntes, que o olhavam com dó, mas sem sequer lhe perguntarem se estava bem. - Se eu ao menos morresse. Depressa… Tinha dores no corpo todo e dificuldade em respirar e sentia falta de uma mão para agarrar. Não sabia o que o esperava do outro lado da vida. Sabia apenas que havia outro lado, porque a sua alma assim lhe segredara ao ouvido e ele acreditava em tudo o que a sua alma lhe dizia. A alma falava-lhe coisas através dos sonhos e vinha pela voz do seu cão, que ele não sabia como, mas percebia. Quando tinha aqueles sonhos, em que a sua alma lhe falava através do seu cão, andava todo o dia bem-disposto, mesmo que nesse dia as esmolas mal dessem para um prato de sopa e dois pães com uma lata de atum, que dividia irmãmente com o Anjo. Era como se acordasse mais leve ou apenas mais conhecedor da sua alma de poeta que amortalhara no dia em que perdera a mulher e mais tarde o emprego, tendo-se entregue ao desespero e depois à solidão das ruas, onde tinha conhecido gente de muito valor. Pena que as pessoas rotulassem todos os que faziam da rua, a sua casa, de bêbedos ou de drogados. Não era bem assim. Também havia os infelizes, os amargurados e os que se tinham entregado nas mãos de Deus, e tinham deixado tudo para trás. Não tinha sido isso que Deus tinha pedido aos homens? - Deixa a tua casa, a tua família, os teus haveres e segue-me! Foi o que fez. Deixou a sua casa e os seus haveres, porque a mulher o tinha deixado, levada pela morte e foi procurar um Deus que não encontrava… Voltou a sentir um aperto no coração, já tão fraco. Ainda pensou em levar a mão ao peito para tentar que ele não parasse de bater mas, não valia a pena. Estava cansado. Só tinha pena de deixar o Anjo sozinho. Tinha sido uma grande companhia. Logo ele que nunca tinha gostado nem de cães nem de gatos. Ironias da vida… O Anjo levantou-se e ele teve medo que o cão o fosse abandonar, logo agora que ele estava de partida. Mas não. Apenas se deitou sobre ele como que a resguardá-lo da noite que começava a esfriar. Bom amigo, este Anjo. - Pareces um Anjo da guarda. – disse baixinho, ao ouvido do cão, que parecia chorar por ele, tal era a dedicação. Puxou para cima deles, conforme pode, a velha manta e encostou-se mais à porta do Edifício do Banco, de onde vinha algum quente do ar condicionado, que provavelmente tinha ficado ligado por esquecimento. Mas ainda bem que assim foi. Sentia-se mais aconchegado pelo quentinho, que passava por baixo da porta. Abraçou-se ao Anjo. Sentiu que o fim estava próximo. Ou seria o princípio? Morreu com a cara encostada à porta para que o calor o aconchegasse. Quando percebeu a sua partida, o Anjo levantou-se de cima do homem e sentou-se a seu lado uivando à lua, que se rebolava no céu. As pessoas passavam indiferentes à morte que se sentara no passeio, esperando que a alma do poeta se soltasse do corpo e o acompanhasse. Não teria de esperar muito. Há muito que ouvia o pobre homem chamar por ela. Apressadas e com frio, as pessoas corriam ansiosas por chegarem a casa, jantarem e ficarem no aconchego da lareira ou do aquecedor, comodamente sentadas nos seus sofás, até serem horas de mergulharem os seus corpos quentes nas suas camas macias e adormecerem de mãos dadas com alguém. O Anjo continuou a uivar como se ladrasse à morte, que já cortava uma esquina do céu, na companhia do seu dono. O cão ficou deitado ao lado do corpo do homem da rua. Já não uivava. Chorava! Uma menina passou pela mão da mãe. -Mãe…olhe que cãozinho tão lindo. Parece um anjo. A mãe parou, olhou para o cão, tentando esconder o desprezo ou nojo que sentiu pelo cão e pelo dono que estava deitado no chão, e disse-lhe: - Anda Ritinha. O cão deve ser daquele drogado que está ali deitado no chão. Vamos embora que podem ser perigosos… - Mas mãe…e se o senhor está morto? - Está cá agora. Ou está drogado ou bêbedo. Vamos embora que está frio. - Mas podemos levar o cãozinho para casa? Ele não está drogado nem bêbedo, pois não, mãe? - Estás parvinha, Ritinha… E lá seguiram as duas, a mãe a arrastar a filha, que se tinha virado para trás para dizer adeus ao Anjo. Foi aí que a morte, que ainda olhava para baixo, viu o cão abandonar-se à tristeza e ao frio, enquanto chamava por ela. Não teve outro remédio, voltou para trás e consigo levou o dono e o seu cão, para o lado de lá da vida. Na terra, os homens continuavam entregues às suas vidas, ao seu egoísmo e a não escutarem o que as crianças dizem, pelo simples facto de elas serem apenas isso. Crianças!

DOIS TEMPOS QUE PRECEDEM O MOMENTO

Os cabelos esvoaçavam como as velas duma nau. Nesse fim de tarde, ele afastou aqueles fios finos e sedosos do seu rosto redescobrindo o caminho da sua pele até à boca. Apertou-a nos braços e no coração. Ela, na ansiedade de lhe tocar, sentiu o sangue querer rebentar-lhe com as veias. Falavam-se assim… de olhos fixos e corpos presos, não trocavam uma só palavra, abraçavam-se, abraçavam-se até ficarem vincados no corpo um do outro. Deram outro beijo, as costas tocaram-se e seguiram caminhos opostos. Já longe, ele colocou as mãos em forma de concha na boca e gritou: «AMO-TE!» Ela sentiu a força da palavra trazida pelo vento e repetida mil vezes pelo eco, ergueu o braço como se a quisesse agarrar. … Passaram muitas estações do ano, muitas fases da lua, e ela não usava já os cabelos compridos, soltos e livres ao vento, o rosto ostentava a entrada do outono mas mantinha aquele sorriso de mar e o olhar penetrante das águias-reais, tinha o coração fechado no peito e as chaves penduradas naquele dia longínquo de primavera. Caminhava devagar, escolhia com precisão os pequenos regos deixados na planície pelo arado como se levitasse para não pisar as frágeis flores naquele mar de cores. Ao longe, um vulto caminhava na sua direcção, era ainda um vulto indefinido mas ia criando forma à medida que se aproximava dela. Percebeu que trazia na mão um ramo de flores mas não eram umas flores quaisquer e de repente reconheceu aquele rosto… era ele. Numa impulsividade desmedida, correu campo fora de braços abertos e a gritar contra o vento. Deram um abraço forte na falta dos mil abraços que perderam e rebolaram por cima das pequenas flores silvestres presos num único e demorado beijo. Falaram dos desenhos que as nuvens fazem no céu, das joaninhas e da chuva que tardava. Ficaram de peito arfante deitados em cima do mar de flores e os olhos percorreram o azul infinito do céu. Adormeceram e acordaram no tempo passado, ele procurou-lhe a mão, apertou-a com ternura e disse: «jamais esquecerei este dia», ela ergueu-se, deu-lhe um beijo no rosto e sorriu. Olharam para longe na direcção da árvore centenária que tão bem conheciam, abraçaram-se e caminharam na sua direcção, no tronco majestoso ainda se conseguia ver um coração desenhado com um canivete. Recordaram o tempo do namoro e da promessa que aquele coração ali desenhado iria crescer à medida que a árvore se aproximasse do céu, tal como o amor que sentiam… infinito. Ele encostou-se ao tronco e olhou-a de frente com um sorriso nos lábios, ela parecia coberta por aquele tecido fino e macio que envolve o amor. Silenciosa, aproximou-se e procuraram nos olhos o naufrágio um do outro. Acariciou-lhe o cabelo agora mais curto, por cima pairava uma auréola, era o reflexo da madrugada. Tocaram novamente os lábios e com a ponta da língua saborearam as bocas que sempre souberam de cor. Ele tocou-lhe os seios num afago. «Queres-me…?», disse ela. «Sempre…», respondeu-lhe.

PERDAS E GANHOS

Quem consegue? Como se consegue? Janelas que nos deixam respirar quando as portas batem. Tantas já bateram. E fiquei assim, num ambiente sem ar, sem luz, sem vida. De repente, uma janela se abre e sopra uma brisa, nem sempre de cheiro bom, mas no mínimo capaz de me impulsionar para fora. Para a busca, para o risco. Arriscar. Sim arriscar sempre. Pouco, muito, com alguma certeza ou na dúvida total. Viver, mesmo que sangre muito. Os erros são fatais. As lágrimas uma conseqüência, mas num quarto sem porta e sem janela não é possível escalar montes, descer encostas, encontrar o mar. Não é possível jogar os sapatos fora e sentir as pedras, a terra, a grama, a água. Num quarto sem porta, sempre procuro a janela. É só pular. Lá fora estão os bichos, as dores, o pranto mas estão todos os amores. É preciso, é necessário, é da essência, da natureza do homem buscar o amor. Eu busco. Se tem um preço? Sim. Alto muitas vezes. Mas o resultado do amor nunca é negativo. No mínimo fica no meu corpo o cheiro de um perfume querido. A oportunidade é grande de me envolver num mundo de borboletas, de nuvens, de risos, de olhares, de cumplicidade. De doação, de paixão, de honra, de entrega. A porta fechada é só mais um motivo para eu pular a janela e ir ao Mundo, ir à Vida. Pra isto eu vim. Foi o amor que eu vim buscar.

EU AMO-TE!

Estou aqui sentada à mesa do jardim e enquanto contemplo a profusão de vida que me envolve, enquanto me deixo levitar pelo trinado das aves e inspiro os mil aromas da madrugada, penso em ti. Sim, Morte é em ti que penso e vou-te contar um segredo que descobri acerca da relação que nos une… “Eu Amo-Te!” Não, não temas por mim, não penses que ensandeci e que vou ter atitudes incognoscíveis mas vou-te contar o que descobri nesta carta que sei que lerás enquanto a estou a escrever. Lembras-te quando era pequena e brincava com pessoas que mais ninguém via, aí ainda não tinha consciência de ti, para mim tudo era vida. Lembras-te quando perdi o meu Avô e foi ele que em sonhos me veio avisar de que ía mudar de lugar e me pediu para dizer à minha mãe o que estava a acontecer, ainda antes do telefone tocar, e que iria tomar conta de nós, que não nos deixaria até porque iria ajudar a nascer o primeiro neto homem e a minha mãe nem grávida estava!? Lembras-te de como me trataram quando cheguei a casa dos avós e na minha inocência dos cinco aninhos disse à minha avó para sorrir que o meu Avô estava Feliz e já não sofria? Lembras-te que me fecharam num quarto o dia todo por estar a ser alvo de qualquer ataque demoníaco enquanto as carpideiras rodeavam a minha avó e se fingiam muito sentidas? Pois bem, podia continuar a desvendar-te memórias mas para já fiquemos por aqui pois foi nesta altura que tive consciência de como te vêem, de como te tratam e de como tratam quem te vê diferente e aí fiquei magoada por mim e por ti mas comecei o caminho que me permitiu chegar até aqui e ao sentimento que nutro por ti. Não é fácil perder ninguém, estamos apegados à presença física da pessoa e por mais que a possamos sentir de outra forma falta o aconchego de um abraço, o doce afago da voz a que nos acostumámos e que nada precisa dizer porque já a entendemos no consentido silêncio do ser. Não é fácil fazer o luto, deixar ir o que nunca nos pertenceu e foi um presente que a vida nos deu para usufruirmos enquanto pudesse ser. Não é fácil dizer a uma criança para se resignar com a dor de perder um dos progenitores, de se lembrar dos momentos bons e honrar dessa forma a cumplicidade e o amor vividos. É duro ver alguém partir mesmo quando encaramos a morte como um renascer, como uma mudança de vibração, como um transcender, mesmo quando continuamos a sentir o amor que nos uniu e ver este ganhar novas dimensões, uma nova intensidade, livre dos constrangimentos da dualidade, da matéria. Confesso-te, Tu és um Amor difícil mas isento de temor. Agora perguntas-me porque te amo e eu respondo-te que sem ti como é que eu poderia dar tanto valor à vida, como é que eu poderia crescer, fragilizar e fortalecer?! São as perdas que surgem no caminho que nos fazem olhar para dentro de nós, contemplarmo-nos a sós, enfrentarmos os nossos fantasmas, desempoeirarmos o nosso sótão, abrirmos as portadas a outros horizontes, a outras moradas. E aí quantas vezes temos de lidar com a culpa por não termos dito o que sentíamos, por não termos aproveitado mais todos os instantes, por não termos perdoado esta ou aquela afronta. Essa é a verdadeira Morte, essa é que é devastadora… a culpa que nos mina por dentro, que nos corrói o amor que temos cá dentro. Essa é que é profundamente lapidadora mas quando conseguimos levantar a cabeça, voltar a contemplar um pôr-do-sol sem medo de nos encontramos connosco próprios no amanhecer seguinte, encontramos o valor que nos eleva, que nos ajuda a compreender a dor e a sorrir com a autenticidade do recém-nascido. Como não te Amar se és Tu que me permites viver mais intensa e harmoniosamente, se és tu que me ajudas nas minhas mortes sucessivas e no meu renascer?! Comovida, deixo-te o meu coração em forma de beijinho e reafirmo de asas abertas… Eu Amo-te!

CASOS OU ACASOS

Cruzámos os olhares a meio caminho entre o balcão e a parede do fundo da sala, detivemo-nos por breves instantes. O corpo dono daqueles olhos grandes e de um verde selvagem parecia ter-me escolhido e aproximou-se de mim. - Posso? – Os seus lábios mexeram-se levemente e um aceno de cabeça apontava em direcção do banco alto. Nem me deu tempo para lhe indicar o lugar ou levantar-me delicadamente, colocou um pé em cima do estribo circular que envolvia a parte de baixo do banco e sentou-se. - Sim! – Ainda consegui articular apesar de nada valer, e disse-o timidamente não conseguindo descolar os meus olhos daquele corpo esculpido com perfeição. Que intenção terá ao dirigir-se a mim? Sim! Com tantos lugares vazios… ficámos em silêncio à semelhança de toda a sala como se estivéssemos no ensaio geral duma peça de teatro. O relógio pendurado por cima da estante das garrafas tinha parado no momento em que ela se sentou, ou então fui eu que quis parar o tempo. Faltou um pouco do ritmo até então dado pelo tique-taque. Tudo se calou. Tinha tantas palavras a quererem sair da minha boca mas não fui capaz de articular nem um monossílabo. Encostei-me ao ferro frio do banco e o verde dos olhos dela parecia um prado em pleno mês de Maio. Do nada, surge a pergunta: - O gin daqui é bom? – Apontou para o meu copo com o mesmo sorriso de antes. - Gin? Não sei, isto é ginger ale, simples – e levantei um pouco o copo alto e fino. Retribuí o sorriso enquanto sentia o frio do líquido que trespassava o vidro. - Ginger ale? Mas isso é lá bebida que um homem beba num bar? Ainda por cima ao balcão? Havia qualquer coisa de irónico na expressão “… que um homem beba…”. Fixei-a novamente tentando ler-lhe nos olhos o que quereria dizer. Entretanto, cruzava as pernas cobertas por umas calças brancas e justas. - Não gosta de ginger ale? – pareceu-me que não me ouviu, agarrava o cabelo em mão cheia e depois soltou-o. O cabelo era liso, castanho e brilhante. Repeti – Não gosta? Não gosta de ginger ale? - Gosto, mas nos bares só bebo whisky e… Old Parr. Levantou o dedo e fez o pedido ao empregado. - Não bebo bebidas alcoólicas à noite, ainda mais estou de carro – disse-lhe tentando entrar naquele jogo de poucas palavras. Nunca tinha mantido uma conversa tão bizarra com alguém desconhecido como naquela noite. - Podemos sentar-nos ali e falar um pouco? – apontou para um recanto em que os quatro bancos e a mesa estavam vazios. Agarrei no copo ao mesmo tempo que ela dava um pequeno salto do banco. Sentámo-nos e pediu outro whisky. Falou, falou, falou… disse-me coisas sem sentido, que estava ali mas não de corpo inteiro, que naquele momento não passava dum pequeno fragmento dela própria. Falou das gotas que se formavam no meu copo pela interacção do gás e num determinado momento ainda articulou qualquer coisa no sentido de me dizer o que fazia ela ali. Havia surrealidade naquele ser esculturalmente belo e de lindíssimos olhos verdes. Apesar do discurso desfasado e delirante, a sua voz era doce, afável, tinha textura, era como se estivéssemos no final do verão e no princípio do outono, continha nostalgia em cada uma das palavras. O relógio continuava parado e nem dei pelo tempo passar. Pedi licença e dirigi-me às casas de banho. Passei um pouco de água no rosto e olhei-me no espelho. «Mas que raio tenho eu para aquela mulher vir ter comigo e falar de coisas absurdas? Não estou a entender nada do que diz.» Empurrei a porta de vaivém e afastei o cortinado grosso de veludo vermelho que cobria a entrada. Na mesa estavam os dois copos, sós. Da mulher, nem rastos! Numa das bases estava escrito: “obrigada”. Não sei se o que acabo de narrar aconteceu, confesso que não sei, provavelmente tudo não passa do efeito do ginger ale… «Podia ao menos ter dito o nome», pensei.

O ESPELHO

Há dias em que o detesto. Hoje é um desses dias… ou talvez não… Fico sempre à espera de que ele me mostre a menina e a mulher que um dia fui. Mas, incapaz de me mentir, ele mostra-me quem hoje sou realmente. Depois, olho com mais atenção e reparo que por detrás de uma ruga que ontem não estava cá e de um fio branco no cabelo que se esquivou à tinta do cabeleireiro, está uma mulher de verdade. Alegro-me, ao reconhecer-me no brilho do olhar, que continua o mesmo, e no sorriso ainda cativante que ofereço de bom grado às pessoas de quem gosto e a quem gosta de mim. Depois de uma análise mais detalhada, agrada-me o que vejo, se bem que a frescura dos vinte anos tenha desaparecido, tal como a graciosidade dos trinta e o esplendor dos quarenta, para dar lugar à maturidade e elegância dos cinquenta. Ajeito o cabelo para trás da orelha, retoco com o dedo o baton discreto que sempre uso e corrijo a base, porque me parece ter exagerado. Sorrio. Não está mal, não senhor… Ainda é cedo para sair. Ponho perfume, escolho o relógio que melhor combina com a roupa e peço a Deus que esteja sol, porque hoje, eu mereço e preciso dele, para me tirar desta penumbra que escondo sempre em mim. Há dias em que não sei se sou triste ou se estou feliz. Mas hoje, diante do espelho, jurei a mim mesma que ia estar feliz. Hoje, basta-me estar feliz. Volto ao espelho… Preciso de um último conselho sincero, antes de sair. Li algures que vemos melhor a nossa alma e a nossa essência, se fecharmos os olhos diante de um espelho. Pareceu-me na altura disparatada a ideia mas, neste momento, parece-me de tal maneira acertada, que não vacilo, quando penso em ficar em silêncio e de olhos fechados perante aquele meu companheiro que nunca me mente. Que não se coíbe de me dizer quando acordo com setenta anos, nem quando acordo com vinte, que não se apieda de mim quando me recuso a olhá-lo, porque não gosto da sua franqueza. E assim, de olhos fechados perante ele, aguardo que me mostre se valeu a pena ter percorrido o caminho que me trouxe até aqui. Se valeu a pena ter errado tantas vezes… Sorrio de olhos fechados, porque me apercebo de que, apesar de muitos erros, também consigo vislumbrar muitas decisões acertadas, muito caminho bem percorrido e, nesse momento, alcanço finalmente alguma paz. Fecho os olhos com um pouco mais de força, para poder recuar um pouco mais no tempo. Tenho saudades do que vejo, saudades do que deixei de viver, saudades de pequenos nadas que me fazem tanta falta, saudades de mim, sendo outra. Chegam-me lembranças de tempos muito felizes, perfumados de primaveras e, quando dou por isso, rola-me pela face uma lágrima que não é de tristeza, mas de saudade. Gosto de ter saudades, tal como gosto de fado, de flores do mato e do pôr-do-sol na praia, quando corre uma brisa morna. Gosto de ter saudades, tal como gosto de quem gosta de mim. Abro finalmente os olhos, depois deste passeio pela Rua da Saudade e vejo à minha frente uma mulher que faz amanhã cinquenta e um anos, sem complexos da idade e com uma vontade imensa de SER feliz. Retoco a maquilhagem que a lágrima esborratou, acerto o relógio, que ainda se rege pelo horário de inverno e saio para esta rua que se chama Realidade e que constantemente se cruza com a Rua da Saudade. A. Luz — com Paula Tavares, Rafael Gomes, Agos

BALADA DE DESESPERO E DE ESPERANÇA

Olha a filha que dorme, enroladinha na sua cama. Com que sonhará ela? Parece tão tranquila, tão distante da realidade. Mas graças a Deus que assim é. Tem tanto tempo para se aperceber de que a vida não é o teatro que ela todos os dias lhe representa, para que não se aperceba de quanto sofrimento a acompanha constantemente. Quando ficou grávida e se viu sozinha, porque o namorado voltou para a mulher quando soube, pensou até em acabar com a vida. Chegou a fechar-se na casa de banho com uma caixa de comprimidos para dormir, mas, ao último momento, faltou-lhe a coragem. Quem sabe os pais não a perdoavam? Mas tinha medo da reacção do pai, que era homem muito arreigado a tradições e muito católico e com a mãe, sabia que não podia contar, caso o pai a não aceitasse. A mãe temia o pai ainda mais do que ela. Mesmo assim, resolveu arriscar. Todo o dia esteve fechada no quarto à espera de coragem para contar aos pais, mas a verdade é que não podia deixar correr mais tempo. Estava de três meses, a barriga começava a arredondar e os peitos a tornarem-se mais salientes. As raparigas que trabalhavam com ela na fábrica constantemente lhe diziam que ela estava a ficar mais gorda e a mãe, que não era parva, um dia em que a apanhou sozinha, disse-lhe que ela estava com cara de grávida e rematou logo a conversa dizendo: - Vê lá o que andas a fazer, olha que o teu pai dá cabo de ti e de mim também. Se isso te acontecer, mais vale desenrascares-te… Ela encolheu os ombros, fingindo não se importar, mas quase morreu com as palavras da mãe e eram essas as palavras que lhe martelavam na cabeça.Voltou a olhar para a filha e os olhos encheram-se de lágrimas. Como pôde ela sequer chegar um dia a pensar em “desenrascar-se”? Amava aquela menina mais do que tudo na vida. Havia dias em que a sua vontade era desistir de tudo, ou então adormecer e só acordar quando todos os seus problemas estivessem resolvidos mas, sabia que isso era impossível. Por ela mantinha 2 empregos. Trabalhava das sete da manhã às 2 da tarde, num café e depois ainda ia trabalhar a dias, em casas onde passava a ferro. Quando contou aos pais que estava grávida, a mãe sentou-se à mesa da cozinha com a cara escondida nas mãos, como se estivesse cheia de vergonha. O pai esbofeteou-a, chamou-lhe rameira e deu-lhe um mês para que saísse de casa, antes que a barriga se começasse a notar. E era aquele o homem que ia à missa todos os domingos e que batia com a mão no peito enquanto dizia “ perdoai-nos as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido”… Chorou toda a noite. Não sabia o que fazer à vida. E, mais uma vez, pensou em acabar com tudo. Mais uma vez a coragem lhe faltou. Tinha um mês para encontrar uma solução. Durante esse mês, o pai não lhe falou e todos os dias marcava no calendário que tinha na cozinha, os dias que faltavam para que ela se fosse embora. A mãe só lhe falava quando o pai não estava presente e constantemente lhe dizia que o melhor era ela ir à parteira lá da terra, que era mulher de guardar segredo e que havia de a ajudar a desenvencilhar-se. Ela, então, deixava-a a falar sozinha e fechava-se no quarto à espera de um milagre, sabendo perfeitamente que não havia milagres. Os dias passaram céleres e uma noite de Inverno, quando chegou a casa depois de um dia de trabalho na fábrica, tinha duas malas e um saco à porta com todos os seus pertences. Sentou-se à porta, ao frio e chorou. Acabou por dormir enroscada no celeiro que havia ao fundo do quintal e que, por acaso nessa noite, não estava fechado. Mas não foi por acaso. Quando entrou, encontrou um termo com comida, umas mantas de papa e um bilhete escrito pela mãe, com uma letra rude e quase infantil, porque a instrução era pouca, onde lhe dizia que, como o pai raramente ia ao celeiro, que ficasse por lá mas que saísse bem cedo de manhã e voltasse bem de noite, para ele não dar pela sua presença. Afinal, a mãe tinha coração, só que o medo que tinha do pai sobrepunha-se à vontade de a ajudar. Às 6 da manhã, já estava fora de casa, para que o pai não a visse e só voltava quando a noite já tinha caído. Ficava na fábrica até mais tarde, a trabalhar, sem que lhe pagassem nem mais um cêntimo. Mas o tempo não parava e a barriga estava cada vez maior. Um dia, o capataz chamou-a lá dentro, porque lhe queria falar. Pensou que talvez lhe fossem dar mais algum dinheiro, por todos os dias ser a última a sair mas, em vez disso, o capataz insinuou-se a ela e disse-lhe que não a despedia, se ela aparecesse ali sempre que ele a chamasse e se ela fosse “boazinha” com ele. O desespero foi tal que lhe bateu com uma tábua que estava no chão e o deixou a sangrar. No dia seguinte, estava desempregada. Felizmente tinha algum dinheiro, o que lhe permitia viver sem trabalhar durante alguns meses, desde que pudesse continuar a dormir no celeiro. Quem é que lhe dava emprego agora? Solteira, à espera de um filho e numa terra pequena onde toda a gente a conhecia, mas onde ninguém a ajudava. Em desespero, recorreu ao padre lá da terra. Afinal não eram os padres os representantes de Deus na terra? Se o eram, a sua missão era perdoar a quem tinha errado e ajudar quem precisava. O padre recebeu-a de cara fechada e com lições de moral, como se ela fosse a única pecadora ao de cima da terra. Não foi Cristo quem disse “quem nunca pecou que atire a primeira pedra”? Contrariado, lá resolveu ajudá-la. Uma prima sua tinha uma pessoa conhecida que tinha um café lá para os lados da serra e que precisava de ajuda, podia lá ficar e assim evitar falatórios na aldeia. De manhã cedo lá partiu de autocarro, com duas malas na mão, uma carta de recomendação para a prima do Sr. Padre e uma criança a mexer-lhe nas entranhas. Nesse dia, apaixonou-se pela criança e a ideia que tinha de acabar com a vida afastou-se para sempre da sua cabeça. Agora, queria viver. Por ela e pela criança que lhe pulava no ventre e que não tinha pedido para nascer. Já no autocarro, e com as duas mãos sobre a barriga, num jeito de mãe protectora, começou a sonhar com uma vida nova. Afinal estava em 1980, não era a primeira mãe solteira e não seria a última. A filha acordou. Era tão bonita. Tinha ficado com os olhos verdes do pai e com os caracóis negros da mãe. Era uma mistura lindíssima. Um abraço apertado começou o dia das duas. Era como se esse abraço lhe desse forças para suportar as agruras do dia. Agora era vesti-la, dar-lhe sopinhas de leite como ela gostava e deixá-la entregue à D. Piedade, a prima do Sr. Prior, que se tinha revelado uma santa. No ano seguinte, a sua Estrelinha já ia para a escola primária e era altura de começar a procurar uma casinha para si e para a filha, para terem o seu próprio espaço. Mas nunca, nunca iria conseguir pagar à D. Piedade o bem que esta lhes tinha feito. Depois, lá ia para os seus dois empregos, regressando só ao cair da noite, para aí sim, dar toda a sua atenção à filha. Ganhava pouco, mas como a D. Piedade não lhe levava nada do quarto, nem de lhe olhar pela filha, todos os meses conseguia pôr um dinheirinho de parte. Olhou-se ao espelho. Estava com trinta anos. Era nova e tão velha… Vivia unicamente para a filha e para as horas de trabalho. Não sabia o que era ter um namorado nem queria, se bem que às vezes sentia saudades de um abraço apertado, de um beijo carinhoso… Beijou a filha, pediu-lhe para que se portasse bem e partiu para a sua luta diária. Quando chegou à direcção indicada pelo Sr. Prior, foi recebida por uma mulher forte e toda vestida de preto, que se apresentou como D. Piedade. Não era de grandes sorrisos, mas gostou logo dela. Tinha um ar de quem necessitava de alguma atenção e carinho. A casa era grande e antiga e precisava de alguns arranjos. Mesmo assim era confortável e estava quentinha, apesar do vento cortante que assobiava por entre as árvores que enfeitavam a serra. - Com que então estás grávida e não tens pai para o teu filho? Tudo se há-de arranjar. Segunda-feira começas a trabalhar no café do Almeida. Podes cá ficar em casa. Estou viúva há seis anos e um pouco de companhia vai fazer-me bem. Depois encaminhou-a para um quarto pequeno, mas confortável, que tinha ao lado da cama um pequeno berço de verga. Comoveu-se com o que viu. - Este berço era para o filho que nunca tive. Há muitos anos julguei que estava grávida. Cresceu-me a barriga, ganhei leite nos seios mas, afinal, era uma brincadeira da natureza. Depois disso, tive de fazer uma operação. Nunca mais pude ter filhos… Nesse momento, nasceu uma verdadeira amizade entre as duas, apesar de não serem de grandes manifestações de afecto. Quando a filha nasceu, a D. Piedade foi a madrinha e quem a baptizou foi o padre da sua aldeia, mas muito contrariado. Se não fossem os sermões que a D. Piedade pregou ao seu primo padre, a Estrelinha teria ficado sem ser baptizada. A filha chamava-se Madalena, mas como a D. Piedade dizia que os olhos dela pareciam estrelas, depressa se habituaram a chamar-lhe Estrelinha. Chega a casa às sete e meia. É Inverno. Faz frio. Vem desejosa pelo abraço de filha e pela sua vozinha de passarinho quando lhe pergunta ao ouvido se lhe trouxe um chocolate. Anseia pela hora em que se entende na cama porque há doze horas que está de pé sem se sentar, senão o bocadinho que pára para almoçar e mesmo assim, levanta as mãos para o céu porque a aguarda um quartinho confortável e um jantar que a D. Piedade lhe oferece, porque desde que a Estrelinha nasceu, que não lhe leva um tostão, nem a deixa contribuir para as despesas da casa. É por isso que tem um pezinho de meia jeitoso. O Sr. Prior continua a dizer à prima que é uma exploração, que a prima lhe devia levar dinheiro. Que se ela trabalha, bem que pode pagar. E diz isto tudo à sua frente. A D. Piedade manda-o calar e diz-lhe para ficar descansado que a reforma do major, dá bem para as despesas da casa e que ainda sobra todos os meses algum para pôr de parte. O Sr. Prior sai lá de casa depois de um riquíssimo jantar todos os domingos, com cara de poucos amigos, porque se sente lesado, uma vez que é o parente mais próximo da D. Piedade e sabe que vai ser seu herdeiro. Foi por isso que deixou de ser cliente da igreja. Continua a acreditar em Deus, já nos padres… Quando a Estrelinha nasceu a mãe foi visitá-la apesar do pai a ter proibido. O pai nunca mais quis saber dela apesar das cartas e das fotografias de ambas, que a D. Piedade lhe mandava. Chegou mesmo a dizer-lhe um dia: - Credo, o teu pai no lugar do coração deve ser uma pedra. Onde já se viu um avô não querer conhecer uma neta tão linda? É burro e olha que a tua mãe não é melhor do que ele, desculpa que te diga… Doía-lhe tanto ter de lhe dar razão mas a verdade, é que já se habituara à ausência de ambos e passavam-se dias e dias sem sequer pensar neles. Mas agora o que lhe andava a pesar na consciência, era ter de dizer à D. Piedade que tinha chegado a hora de arranjar uma casinha para ela e para a filha. Não podia continuar o resto da vida a viver às custas da D. Piedade e a ouvir constantemente o Sr. Prior a dizer que ela explorava a prima. Mas numa noite em que chegou a casa com o texto todo na sua cabecinha para falar com a D. Piedade sem a melindrar, encontrou uma ambulância à porta e viu a filha ao colo de uma vizinha a chorar. O coração quase lhe saiu pela boca. A D. Piedade tinha tido um ataque de coração e tinha morrido no chão da cozinha enquanto a Estrelinha assistia assustada. A vizinha do lado ouvindo os gritos da pequena, correu em seu auxílio e deu com aquela tragédia. O Sr. Prior chegou 2 horas depois. Já a D. Piedade estava amortalhada dentro de um caixão preto ornamentado de rendas e cetins, no meio da casa de jantar. Depois no funera,l no outro dia e depois de voltarem a casa, o padre disse que precisava de lhe falar. Sem rodeios foi direito ao assunto e deu-lhe uma semana para sair dali porque queria pôr a casa à venda o mais rápido possível para, segundo ele, dar o dinheiro à paróquia lá da terra que estava muito precisada. Voltou a ter um prazo para sair de casa. Primeiro o pai, agora o padre. E mais uma vez se entregou a Deus e odiou os homens que apregoavam o bem sem o fazerem. Não era fácil numa semana encontrar uma casa, mas não havia dúvidas que Deus estava do seu lado. Ali pertinho havia uma casa para arrendar. O problema sério era onde ia deixar a filha, já que trabalhava doze horas por dia. O ano lectivo ia a meio e já não aceitavam ninguém na creche naquela altura do ano. Além disso, a Estrelinha estava tão triste com o morte da D. Piedade, que a vontade que tinha era de não ir trabalhar para poder ficar com a filha. Mudou para a casa com a ajuda dos vizinhos que aprenderam a gostar daquela menina que um dia tinha ali chegado com um filho na barriga e sem um pai para lhe dar. Todos se mobilizaram e todos contribuíram com um pouco do seu pouco. Ao fim do dia a casinha estava montada com um bocadinho de cada coisa. Aos poucos iria compondo a casa. O mais importante nesse dia, foi que uma das vizinhas se prontificou a ficar com a Estrelinha a troco de uma pequena mensalidade. Não podia recusar. Tinha de trabalhar para poder pagar a renda e todas as despesas que uma casa acarretava e depois, o seu ordenado era tão baixo, que não ia ser fácil. E assim no outro dia retomou a sua rotina. De manhã bem cedo lá foi de coração apertadinho entregar a filha à vizinha, de lágrimas nos olhos mas agradecendo a Deus por não a ter abandonado. Um abraço apertado foi dado entre mãe e filha. A pequena não ficou muito triste e isso de alguma maneira aliviou-a. Quando ao fim do dia chegou a casa, esperava-o um senhor de gravata, à porta. Disse-lhe que era advogado e que precisava de falar com ela. Por instantes lembrou-se que a filha tinha um pai e que podia ser ele a quer a filha agora que já estava crescidinha. Mas logo o advogado a tranquilizou dizendo-lhe que daí a uma semana seria aberto o testamento da D. Piedade e que ela, tal como o Sr. Prior, eram seus herdeiros. Nem quis acreditar. As pernas fraquejaram-lhe e teve de se sentar para retemperar as forças. Como raio ia ela agora aturar o padre? Já sabia que ia ser acusada de ter enganado a D. Piedade. Mas depois pensou que talvez fossem só os brincos de ouro que ela tanta vez lhe tinha gabado. No dia marcado apresentou-se no escritório do advogado o Sr. Prior já lá estava. Estava com má catadura. Era sinal de que já sabia que ela também era herdeira. Apesar dos protestos da Sr. Prior não havia nada a fazer. A D. Piedade tinha deixado à sua afilhada a casa com todo o recheio e 1.000 contos para ficarem a render e assim assegurar os estudos da pequena. O Sr. Prior ficou com umas terras lá para o meio da serra e uma avultada quantia de dinheiro. Só quando viu a quantia de dinheiro que lhe tinha sido deixada pela prima Piedade, é que esboçou um ligeiro sorriso ao advogado. Depois, saiu sem sequer se despedir. Mais uma vez foram os amigos que lhe valeram. Com a ajuda de todos voltou para a casa que agora era sua. E filha estava radiante. Aquela sempre tinha sido a sua casa. Estavam de regresso. A filha dorme enroladinha na sua cama. Tem um sorrisinho de felicidade no seu rosto de princesa adormecida. A mãe aconchega-lhe a roupa e senta-se ao pés da cama a contemplá-la. É tão linda com as estrelinhas verdes nos olhos e os caracóis pretos e desalinhados sobre o rosto. Havia ainda tanto caminho para percorrer. Muitos problemas iriam surgir, ela sabia bem disso, mas quem já tinha sido expulsa de casa dos pais, quem já tinha dormido no rigor do Inverno num celeiro frio e desconfortável, quem já tinha sido enganada e abandonada pelo homem que amava, bem podia suportar o que quer que viesse. Começava agora a sonhar que um dia ainda ia ser feliz porque merecia e porque enroladinha na sua cama, dormia o melhor que a vida lhe tinha dado. Deitou a cabeça na almofada e apesar de saber que no dia seguinte a esperava muito trabalho, agradeceu a Deus tudo o que tinha e pediu-Lhe para que a deixasse continuar a sonhar. “Há quem diga que todas as noites são de sonhos. Mas há também quem garanta que nem todas, só as de Verão. No fundo, isto não tem muita importância. O que interessa mesmo não é a noite em si, são os sonhos. Sonhos que o homem sonha sempre, em todos os lugares, em todas as épocas do ano, dormindo ou acordado.” (William Shakespeare)

O MEU INIMIGO

Não matarei o meu inimigo. Ele sofre como eu e caminha por um caminho verde entre os meus olhos. Não matarei o meu inimigo nem com as mãos nem com o machado. Juro que não desfecharei o tiro piedoso ou vingativo no seu coração nocturno. Não quebrarei as suas pernas nem amputarei seus braços. Nem muito cedo abandonarei seu corpo à chuva para lavar seu ódio sobre a areia vermelha. Não deixarei que o seu olhar apodreça depois da agonia no chão onde tombaram as estrelas fatigadas desta noite ao contrário. Não, não quero estender meus dedos para cerrar as suas pálpebras. Eu não sou inimigo do meu inimigo. Quero acolhê-lo em minha casa. Sacrificarei por ele o meu vitelo. Acenderei o fogo e pela terceira vez o servirei. Não utilizarei nem a força nem a manha contra o meu inimigo nem serei altivo. Antes o sossegarei. O meu coração guardará a sua impaciência. As minhas mãos honrarão a sua rivalidade. Os meus cães respeitarão a sua coragem. Pedir-lhe-ei que se sinta como em sua própria casa. Não lhe esconderei nem as minhas armas nem a minha ternura. Propor-lhe-ei novas palavras sem lhe exigir sequer um juramento. Escolherei o melhor vinho e por ambos levantarei o meu cálice. Quando o meu inimigo sair não mandarei seguir seus passos pelo caminho estreito mas esperarei que regresse com o fulgor das suas armas. Esperarei que venha despedaçar a minha porta devastar a minha casa apagar o meu fogo derramar o meu vinho mutilar o meu corpo entregar meus olhos aos meus próprios cães. Ou simplesmente que o meu inimigo impiedoso de novo queira descansar sob o meu tecto. in 125 POEMAS, Antologia Poética, Litexa Editora, 3ª ed., 1986.

CONCEITOS E ATITUDES

A noite chega por entre os últimos instantes do dia e os meus pensamentos gravitam alvoroçados. Ainda faço um gesto para os agarrar, trazê-los de novo a mim, mas a espiral em que se encontram é tão forte que os desintegra e envia para lá do fim. Cruzo as pernas enquanto olho para o caderno onde quero escrever, desenho algumas palavras, algumas ideias incertas que me servirão de guia. O tempo não pára, a vida lá fora continua a sua azáfama, continua a girar a um ritmo vertiginoso. É em momentos como este, nesta razão oblíqua, que me apercebo da inevitabilidade do ser. Revejo o passado e as marcas ainda frescas que pernoitam em mim. Não sei o que custa mais passar, se o dia se a noite, sei apenas que nestas questões impera a minha pequenez. Quem me dera ter nascido borboleta, como essas que tantas vezes descrevo, ter asas e perder-me no azul do céu. Ter asas é poder alcançar sonhos, é viver para além da vida, seria tornar-me imortal e projectar tudo quanto habita em mim. Gostava de ter esse dom para poder superar todos os obstáculos que aparecem com a chegada das estrelas. Há quem percorra diariamente a estrada da vida com o intuito de cobiçar terceiros, debater vidas alheias, criticar condutas e opiniões. Socorrem-se de artimanhas de forma a esconder os defeitos que possuem. Há quem grite e bata com a mão no peito mas mais não faz que percorrer os labirintos da vida. Por vezes e já tarde de mais se apercebem que o arquitecto de tal labirinto se esmerou a construir vários caminhos dos quais apenas um permite chegar às mais belas cores. Talvez eu viva numa permanente utopia, viva em busca do desconhecido, da liberdade, da esperança, por isso julgo que a utopia é o motor da nossa existência. Procuramos de maneira desenfreada a felicidade, deparamo-nos com inúmeros obstáculos e os olhos enchem-se de lágrimas como se estas, de alguma forma, extinguissem a chama que arde em nós. Quantas vezes temos de perder para entender que o fruto mais doce é o que cai ao chão. Em certas circunstâncias, é preferível viver a pensar num sonho do que enfrentar a possibilidade sempre presente de ele não dar certo enquanto concreto. Neste mundo há um tempo para tudo, tempo para as palavras e para o silêncio. Quando nada mais fazemos do que repetir palavras, o que nos resta é o sossego, a sombra, a quietude. O silêncio não encobre, não omite, não ilude.

Poema CXIV

Abri a porta e não havia espaço. Alguém tinha posto ali uma montanha. Não em frente, mas ali mesmo. A três, quatro metros iniciava-se uma encosta e só saindo a porta se podia ver o cume. Quer isto dizer que agora vejo a vida de outra forma? Que apenas depois de sair de mim poderei sobreviver ou resgatar-me? Ou quer dizer que me sinto sem saída e que terei de transpor uma montanha para atingir a liberdade que só pode alcançar-se do outro lado? Não sei. Gostava de chegar a tempo de conhecer a resposta. Nem poderei dizer: "não me interessa", ou "para quê pensar nisso", ou ainda: "tudo não passou de um sonho, agora acordaste, Joaquim, pára com essa conversa outra vez". Se te dói alguma coisa, não páres, continua porque tudo é doloroso a começar pela dúvida. Tens expectativas, todos os palermas têm expectativas, alguma coisa tens de fazer mesmo que nada tenha resultado nas últimas cinco vezes. Respira, se quiseres respirar, com a coragem de quem assina um papel em branco e cuida da tua alma como um enfermeiro ou um técnico de manutenção. Eu também sei que não temos de fechar os olhos e partir, porque nos podemos escolher a nós mesmos, o que pode ser doloroso mas não é difícil, e temos de tentar, temos sempre de tentar agarrar a felicidade porque ela não chega quando nós menos esperamos, mas quando nos esforçamos e queremos muito que ela chegue. Quando não estás pronto, nada resulta. Até o amor é como um sapo sempre de um lado para o outro, carregando o que de mais sujo e feio existe em nós. Procura então com coragem uma forma de não entrares à socapa e ficares a assistir. O truque está em saber ver a diferença. Não queiras permanecer no mesmo sítio a cantar a mesma canção sem ir a lado algum. Desse modo nada importará, porque o que realmente importa, já nem te apetece procurar. E se investires muito nas perguntas e pouco nas respostas, serás um mendigo que tudo tem e nada possui. Não dobres a medo o cabo dos trabalhos, porque a tua memória é líquida mas não se lembra daquela luz que se esconde na água, nem sabe de que lado é a nascente dos pássaros que poisam nos sentidos das coisas que regressam. Se quiseres falar, eu estou aqui. No território onde podes contar coisas em que ninguém acredita e onde eu posso deixar os meus versos àqueles que não gostam de poesia. Não continues especialista em envergonhar-te perante ti mesmo. Precisas de uma vida nova, de uma mudança séria que não deixe tudo outra vez como estava vinte e quatro horas antes. Como é que isto soa na tua cabeça? Enquanto fores vivo podes aprender, mas não exijas perfeição em nada. O que é fabuloso continuará a sê-lo enquanto pensares que o é. Tudo está em ti sempre prestes a partir, mas a tua galinha poderá ser muito maior e mais gorda que a dos teus vizinhos. Uma família é um abraço. Estende o pensamento para os teus. Para a tua aldeia. Para o mundo. És uma criança, não podes lutar contra outras. Se o fizeres, não vais querer parar. E a seguir não vais poder respirar. Continua a ser o teu braço direito, e lembra-te de que há coisas que não podemos deixar de discutir. E que há outras de que nunca queremos saber. Desejamos firmemente um tratamento especial mas por vezes a vida dá passos muito grandes, demasiado grandes para que possamos acreditar, e o normal nunca será normal se te sentires anormal. A culpa é como uma mãe, autêntica, sempre a querer colar-se a nós e a lembrar-nos o que não deveríamos ter feito, como se todos os dias fossem véspera de Natal. E se Jesus ressuscitou, por que não ter, ao menos, expectativas? Como te disse, até os palermas têm expectativas, mas deixa lá, pode até acontecer que abras a porta e não vejas a montanha ou que, sequer, isso tenha, afinal, algum significado. De qualquer modo, também gostei de falar contigo. in O POUCO É PARA ONTEM, Litexa Editora, 2008.

DIA 321



A dois dedos da poesia, a um palmo do infinito.
Íntima vigília, esta, em que fecho os olhos à noite e todos os ca-
melos passam pelo buraco da agulha.
Um arcebispo salta de uma nuvem para olhar-me nos olhos qua-

se pardos, palermas e sem dom. Na imensa árvore da madrugada

os ramos estão desiludidos, fatigados, cheios de remorso.
O arcebispo meneia-se, vestido de branco, maduro e pobre.
Pobre arcebispo, maduro e pobre, que se meneia vestido de bran-
co, era o que eu deveria pensar, mas não é o que eu penso. Evita-
-me um pensamento desses, o orgulhoso pássaro matutino que
vem vindo, voando e vindo, lindo, lindo, lindo.
Ó pássaro da manhã, pássaro de amanhã, pássaro misterioso que
regressas ao ninho sobre o fio das minhas pálpebras. Sabes como
eu amo as tuas asas, como eu invejo as tuas asas, como as tuas
asas são as dos homens que não querem estar sozinhos. Quando
te vejo, o meu coração tem o tamanho de um menir, e o meu cor-
po quase não se sente. Sobre os meus ombros permanece o des-
lumbramento. Porque nenhum dos dias é igual a outro. E a minha
felicidade, a minha imensa felicidade, está a dois dedos da poesia
e a um palmo do infinito.

in ANO COMUM, Litexa, 2011.
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UMA CARTA... apenas uma carta




 Estou a ouvir a canção do Erasmo Carlos, “A Carta”. É uma canção dos anos sessenta ou setenta, não sei bem, mas sei a letra de cor e salteado, toquei-a e cantei-a inúmeras vezes, e há tanto tempo que não a ouvia. Estou a ouvir… comecei eu por dizer, e apeteceu-me escrever uma carta também. Depois pensei «mas eu já escrevi tantas, estou sempre a escrever cartas. Bem sei que lhes dou outro nome, nalgumas até me coloco na pele doutro, digo que encontrei uma folha escrita aqui, um caderno ali, peço palavras emprestadas, etc., etc.» Admitamos que vou escrever uma carta. Quando se escreve algo, esse algo tem de ser lido, não serve apenas para preencher páginas e mais páginas. Para ser uma carta, esta tem de ter endereço, uma morada, alguém a quem a enviar. Vamos partir do princípio que até existe alguém, alguém que sem o ser, é e foi antes de mais alguém de quem gostei e ainda gosto, alguém que nem eu próprio sei se é imaginário. Mas como posso eu escrever a alguém que pode ser imaginário, que nunca me pertenceu nem pertencerá? A não ser que esse alguém me dê um motivo para lhe escrever. Escrevo tanto e no entanto parece-me que não passo dum artista que actua a solo. Precisava dum motivo e tu deste-me esse motivo quando me disseste “…estou tranquilamente a soltar-me de ti…queria contar-te como me sinto mas não consigo… eu vivo-te como só eu sei”. Vês? Já tenho um motivo para escrever a tal carta, talvez seja uma carta como a que diz a canção de Roberto Carlos e Erasmo Carlos, uma que perdure no tempo e faça salgar os olhos sempre que for lida. Se soubesses a vontade que tenho de te dar um abraço. Ah! O que um abraço podia fazer!
     Transporto-me ao sabor das horas, dos minutos, dos segundos que vão chegando e que cada vez passam mais urgentes. Estou a lembrar-me daqueles empregados – eram uns quatro ou cinco, não eram? – que nos acompanharam até à mesa junto do vidro grande que deixava ver todo o mar. Eu já escrevi tanto sobre o mar e sobre esse momento. Pensei que ficaríamos juntos para sempre e agora dizes “…estou tranquilamente a soltar-me de ti…queria contar-te como me sinto mas não consigo… eu vivo-te como só eu sei”. As vezes que leio esta frase… há nela contradições de pensamento, mas é tua, não lhe toco, não a quero desvirtuar.
     Deixo-me levar na espuma da corrente como se dela sempre fizesse parte, sim, deixo-me levar na insustentável inércia das marés que me desinquieta e convida. Se entrar pelo mar adentro não tenho de me preocupar com as linhas da carta, na água há ausência de traços e abecedário, as letras são construídas com imagens invisíveis mas sinto nelas a tua cor e o cheiro do teu amor. Vê lá como ando que até digo que o amor tem cheiro, se calhar é azul como as águas, aqui tudo pode acontecer, aqui, até o silêncio se aproxima mais da quietude do céu. Gosto tanto de ti. Ah, como gosto de ti!
     Há um sentido subjacente em tudo quanto escrevo, porque algures alguém me há-de ler. É gratificante saber que, sem me conhecer, esse alguém me leu, me sentiu, partilhou comigo o sentimento que transporto. E olho novamente a frase: “…estou tranquilamente a soltar-me de ti…queria contar-te como me sinto mas não consigo… eu vivo-te como só eu sei”.
     A canção do Erasmo Carlos chegou ao fim e eu vou também terminar esta carta. Adeus.

POEMA OCTOGÉSIMO PRIMEIRO

















Esvoaço sobre o poema
como o pardal sobre os ombros da seara.
Releio-me.
Procuro no meu texto outras verdades: é tua
a minha vida ainda que o não saibas, tua e dos meus
amigos e das minhas palavras.
A minha vida é um livro, cada página
está preenchida com amores e canções, poemas
onde a minha voz lavra a terra e cumprimenta os pássaros
e fala baixinho com os casulos da sombra e as borboletas
da luz. O meu amor está também no caminho que percorro,
na queixa deste planeta que tenho sob os pés,
o meu amor é imortal, é um archote que ilumina a carne,
que oferece ao meu sangue e aos meus ossos
uma alegria capaz de todos os afectos.
Acordo nos teus gestos, espreguiço-me
na cama das palavras onde nasce o amor, onde nasce
a ternura, onde nascem os filhos. Vou lavar
os olhos com o teu olhar, sorrir com o teu sorriso,
fazer perguntas a mim mesmo.
Tudo me pede que cante,
tudo me diz para cantar. E eu continuo
a interrogar-me, enquanto me dispo, enquanto
escrevo
o que o texto me pede.

(De GUARDAR O FOGO, a publicar) 

A MICAS

A Micas nem sempre tinha sido Micas. A mãe e a madrinha, senhoras muito ligadas às lides da Santa Madre Igreja, tinham-lhe dado o nome de Maria da Anunciação. Depois, e achando o nome demasiado pesado para uma criança de tão fraca constituição, resolveram encontrar-lhe um “petit-nom” que melhor lhe assentasse.

A madrinha sugeriu Sãozinha, a mãe Sãozita e o pai, que ainda era quem vestia as calças lá em casa na altura, decidiu que lhe deveriam chamar de “Micas” que era o que chamavam à sua santa mãe, que Deus a tivesse lá muitos anos sem ele, e que dava pelo nome de Miquelina. A mãe odiou, porque sempre tinha odiado a sogra e a comadre benzeu-se, porque lhe soou a nome de pecadora. Mas estava decidido. A partir desse dia a Maria da Anunciação passaria a ser chamada de Micas.


A boa da Micas nasceu sem dever nada à beleza. A mãe bem lhe queria encontrar alguma coisa de bonita mas, por mais que a pusesse ora de perfil ora de frente, a rapariga não tinha ponta por onde se lhe pagasse. Tinha um cabelo preto e espetado que mais parecia pêlo de rato, uns olhos cinzentos pincelados de um verde indefinido, quando lhe dava o sol, e uns dentes que mal lhe cabiam na boca, ornamentando uns lábios carnudos de gata gulosa. Na escola não era uma aluna brilhante, mas gostava de aprender e tinha uma verdadeira paixão por livros policiais que devorava num ápice, descobrindo sempre quem era o culpado do crime, ainda o livro ia a meio. O pai adorava-a e a mãe idem mas, a bem da verdade, tinham pena que a pequena não fosse um bocadinho mais bonita.   Quando chegou aos onze anos, e para lhe estragar ainda mais o visual, a pobre rapariga, de tanto ler livros policiais, teve de começar a usar óculos que mais pareciam fundos de garrafa, tal era o grau da miopia que a castigava. O pai e a mãe deitaram por contas que ela nunca haveria de casar, porque só um homem tão desajeitado como ela, a haveria de querer e, mesmo assim, era preciso estar cheio de boa vontade. Mas a Micas, ou Miquinhas, como a criada velha lhe gostava de chamar, lá foi crescendo mais ou menos feliz entre os livros policiais, as novenas da mãe e o amor infinito da criada, que a criava com adoração de mãe devota. Só ela achava algum encanto à rapariga. Enquanto a mãe se lastimava que o cabelo da filha mais parecia pêlo de rato, a criada gabava o seu cabelo de veludo preto e, quando a mãe troçava dos seus lábios carnudos de gata gulosa, a criada adivinhava-lhe uma sensualidade que começava a despertar sem que mais ninguém se apercebesse.


- A Micas ainda a vai surpreender D. Imaculada, – dizia a criada velha – ainda se vai tornar numa bela e cobiçada mulher.-

- Vai sonhando Rita, vai sonhado – respondia a D. Imaculada observando a filha pelo canto do olho enquanto esta devorava mais um livro de Agatha Christie, por detrás dos seus óculos de metal dourado, enquanto ia brincando com as pontas dos cabelos, que já tinham jeitos de tanto serem enrolados e desenrolados com os dedos.


Um dia, a Micas queixou-se à mãe, que não conseguia ler com os óculos. O pai deitou logo contas à vida, porque a rapariga tinha de mudar de lentes e quem sabe até de armação, uma vez que as coisas lá em casa, em matéria de dinheiro, não iam muito bem, porque o negócio da venda de antiguidades que o pai lhe deixara, começava a descambar e porque o vício do jogo às sextas-feiras, no antigo clube lá da terra, o ia deixando ainda mais desfalcado. Além disso, a mulher, que ignorava por completo a sua situação financeira, metera na cabeça que tinha, porque tinha de ir em peregrinação à Terra Santa com o padre da freguesia e mais umas quantas ratas de sacristia.

- Ó mulher vai a Fátima que é mais perto e ao menos sempre rezas a uma santa aqui das redondezas. Para quê ir rezar para tão longe quando tens uma santa tão famosa aqui mesmo ao pé?

- Não blasfemes Joaquim, não blasfemes. Quem te ouvir até há-de pensar que somos pobres. Ora se as outras senhoras vão, por que não hei-de eu ir eu também?

Estava o caldo entornado. Ou os jogos das próximas sextas-feiras lhe começavam a correr bem, ou ele só ia ter dinheiro para lhe comprar o bilhete de ida. Se bem que a ideia até lhe agradasse. Estava fartinho de tanta missa, catequese, novena e cursos para casais que ele era obrigado a engolir, para agradar à mulher e para que ela não lhe apoquentasse a cabeça nas suas noites de jogo e de copos com os amigos. Se a coisa continuasse a correr mal, tinha de ganhar coragem e dizer à mulher que estavam praticamente falidos.
A verdade é que a Micas lá foi ao oftalmologista, que depois de lhe ver e rever os olhos e da pôr a ler letras miúdas e miudinhas, chegou à conclusão, que miraculosamente, a boa da Micas, já não precisava de óculos. Joaquim respirou fundo, limpou as gotas de suor com o lenço imaculado e alegrou-se ao pensar que nessa noite já poderia gastar mais alguns cobres na mesa de jogo.
- Deus seja louvado – pensou de si para si o bom do Joaquim.

Quando chegou a casa, a Micas já não tinhas óculos, se bem que as narinas ainda apresentassem um sulco em ambos os lados, fruto das pesadas lentes que há anos carregava. A criada velha achou-a ainda mais bonita e nesse dia, até a mãe lhe descobriu algum encanto. Micas fechou-se no quarto e mirou-se ao espelho. Tentou decifrar a cor dos seus olhos. Eram realmente de uma cor indefinida raiados de um verde bonito. Depois, atreveu-se a passar levemente a mão pelos seios que começavam a florir e levantou um pouco a saia para admirar as pernas magras mas muito bem torneadas. Se a mãe a deixasse vestir outras roupas um pouco mais modernas! Mas há anos que usava saias do mesmo feito. Ora saias de pregas, ora saias de machos que só diferiam do tecido conforme a estação do ano, e camisolas de gola alta de Inverno e camisas abotoadas até ao pescoço que mal a deixavam respirar. Voltou a mirar-se ao espelho. Detestava aquele cabelo que lhe dava pelo meio das costas sempre apanhado por um rabo-de-cavalo, rematado com um laço de fita que combinava com a saia. Um dia ainda havia de queimar aquelas roupas todas e usar roupas coloridas e bem curtas como algumas meninas lá do colégio usavam. Se a mãe pensava que ela havia de ser uma rata de sacristia como ela era, estava bem enganada porque a Micas, ainda havia de dar muito que falar.

Querem ver que a mulher queria festa? Logo nessa noite que a única coisa que lhe apetecia era entregar-se nos braços de Morfeu e esquecer por algumas horas o que o esperava. Mas não, não era festa que ela queria, queria dinheiro para ir até à Terra Santa. Joaquim ouviu a mulher enquanto se despia vagarosamente. Nesse momento teve vontade de a amordaçar mas, em vez disso, voltou-se para ela e disse-lhe:


- Nem vais nem à Terra Serra nem à terra do diabo. Estamos falidos mulher. Completamente falidos. A mulher emudeceu e ele deixou-se cair na cama e colou os olhos no tecto trabalhado, para onde ele sabia perfeitamente que a mulher olhava, enquanto ele fazia amor com ela.

- Não temos dinheiro mulher. A vida de rico acabou. Pára de comprar vestidos e sapatos. Pára de dar esmolas chorudas ao padre para as obras de caridade da igreja e esquece de uma vez por todas a viagem à Terra Santa. Temos de nos sentar e organizar a nossa vida de outra maneira. A Micas, para o próximo ano, vai deixar o colégio e vai para o liceu. Ficamos com a Rita, porque é como se fosse da família e se lhe dissermos que não temos dinheiro para lhe pagar, tenho a certeza que vai ficar cá, mesmo sem receber. Imaculada continuava muda, também ela de olhos colados no tecto. Conhecia o trabalhado do tecto de cor e salteado, cada flor, cada arabesco…

- Tu não me podes fazer uma coisa destas, Joaquim. Se eu não vou nesta viagem toda a gente há-de pensar que somos pobres…

- Ó mulher de Deus, nós somos pobres. Nós estamos completamente arruinados. Há meses que não vendo uma peça lá na loja. Temos andado a gastar todas as economias. Se ao menos eu arranjasse comprador para a loja…

Imaculada estava desfeita. Com que cara é que ela agora ia dizer às senhoras que não ia porque não tinha dinheiro? E como podia ela tirar a filha do colégio? Imaculada toda a noite não pregou olho, já o Joaquim, mal caiu na cama, adormeceu e embalou naquele ressonar encurtado por um breve assobio que ela tão bem conhecia. Mas como era possível aquele homem do diabo, que Deus lhe perdoasse por chamar assim ao marido, dormir daquela maneira se ele não tinha dinheiro para lhe dar para ela ir à Terra Santa? Estava decidido. No dia seguinte iria até à cidade vender um cordão de ouro, uma pulseira e dois ou três pares de brincos para custear a viagem. Quando chegasse de viagem, logo pensaria o que havia de fazer com respeito à vida de pobre que a esperava. E lá foi a D. Imaculada para a Terra Santa representado pela última vez o seu papel de mulher abonada. Havia de pedir a Deus ajuda e inspiração para dar uma volta na sua vida. D. Imaculada voltou inspirada da viagem à Terra Santa ou então, rezou tanto, que Deus lhe fez a vontade e a mandou de volta para a sua terra, cheia de boas ideias.

Quando chegou a casa deitou mãos à obra e a todas as ideias que trazia na cabeça. Lembrou-se de aproveitar a loja do marido e, para além das antiguidades, começar a aceitar tudo o que as pessoas já não usassem desde roupas, móveis e ouro para vender e ganhar uma boa comissão com o negócio. O Joaquim não reconhecia a mulher. Não abandonou a igreja, mas começou a ver que não era isso que lhe dava o sustento da família e, da casa de antiguidades, fez um espaço acolhedor e requintado aceitando com todo o sigilo tudo o que as suas amigas e conhecidas lá deixaram para vender. A Micas não deixou o colégio. A criada velha, que tinha um belo pé-de-meia, assumiu todas as despesas. Também para que queria ela o dinheiro? Não tinha parentes a quem deixar nada e há mais de 40 anos que aquela era a sua família. Micas despontava em esplendor e graça e os pais começavam a deitar por contas, que afinal a filha ainda havia de fazer um bom casamento.
Joaquim era agora um homem, também ele diferente. De repente viu-se e ser governado pela mulher. Largou o negócio e vivia com uma mesada que a mulher lhe dava recomendando-lhe: – Se gastares tudo de uma vez, vais andar até ao fim do mês sem um tostão no bolso e, numa noite em que o marido se entregava a mais um serão de jogatina lá no clube, entrou de rompante na sala de jogo e avisou os companheiros de jogo do marido, que não assumia nenhuma dívida que o marido fizesse. Joaquim corou, sorriu e respondeu-lhe:

-Está descansada, minha santa, que eu não vou fazer dívidas.

Imaculada não tinha mãos a medir. O negócio corria-lhe de feição e era o retrato de uma mulher realizada. Às vezes dava por si a pensar como era possível ter-se entregue àquela vidinha medíocre que não interessava a ninguém e maldizia o tempo perdido.
Micas era uma bela mulher de 18 anos. Dona de um cabelo cor de azeviche, de uns olhos raiados de um verde belíssimo e de uns lábios carnudos e vermelhos de fazer inveja às outras raparigas. Tinha atrás de si um exército de homens que a queriam namorar. A mãe cheia de orgulho, dizia:

- Bem dizias tu, Rita, que a Micas ainda havia de se tornar numa bonita mulher. Tomara Deus que ela aceite o pedido de namoro do filho do Sr. Juiz. Parece-me tão bom rapaz e além disso é rapaz de posses. Tinha a vida garantida…

-Não pense assim D. Imaculada, olhe a senhora… O Sr. Joaquim também era de muito boas famílias e olhe a volta que a sua vida levou.

Imaculada não respondeu, mas sabia bem que a Rita estava cheia de razão. Tantos sonhos, tantas ilusões e se não fosse o facto de se ter entregado à igreja de alma e coração, o mais certo era ter começado a dar ao marido vidro moído misturado na sopa, para se ver livre dele. Irra, com tanto pretendente, logo tinha escolhido aquele porque era de boas famílias e também porque os pais quase a empurram para debaixo dele, só para se verem livres dela. Por isso mesmo, jurou a si mesma, que não ia dar palpites nos amores da filha. O que for, será, pensou ela, enquanto recebia mais uma entrega de uns belos copos de cristal que uma amiga lhe tinha dado para ela vender. Se tudo corresse bem, fazia tensões de tirar dali uma bela comissão.
O marido, de vez em quando, aparecia na loja e dava-lhe palpites que ela simplesmente ignorava. Era o que faltava, se ele fosse bom nos negócios, não tinha acabado com a belíssima loja de antiguidades que tinha herdado do pai. Por isso, sempre que ele palpitava, dizia que sim, que sim senhora e depois fazia precisamente o contrário. Ou seja, ele era o seu barómetro. Se ele lhe dizia vende, ela ia, e comprava.Homens…
Micas tinha pretendentes e mais pretendentes mas, casar é que não era com ela. Quando acabou o liceu disse à mãe que não queria estudar mais.

- Mas que queres tu fazer da tua vida Micas, queres casar?

- Para já quero ajudá-la na loja. A mãe tem sempre tanto que fazer e depois, quero escrever livros policiais. Quanto ao casar, não está nos meus planos. O que eu quero é ser feliz. A mãe riu-se e sussurrou-lhe baixinho, porque o pai estava por perto

- Sábia decisão minha filha, sábia decisão. Além disso, mesmo que te cases tarde, vais sempre a tempo de te arrependeres.

Quem diria que a D. Imaculada um dia diria uma coisas daquelas à filha.

- Casar, mãe, só mais tarde, quando estiver cansada de estar bem – respondeu Micas a sorrir e a encaracolar com os dedos as pontas dos cabelos, vício que nunca perdera. Micas fez-se uma mulher plena de beleza e graça. Nunca escreveu nenhum livro policial mas nunca os deixou de ler. Acabou por tomar conta do negócio da mãe e aumentou a loja, que nunca deixou de ser um sucesso e onde as senhoras de bem que, tal como tinha acontecido um dia à mãe, tinham ficando mais pobres, iam deixar em segredo os meus bens mais precisos que depois eram comprados por novos-ricos que só compravam coisas para preencher um vazio qualquer que a vida lhes deixava e porque a Micas sempre inventava estórias mirabolantes sobre as peças que vendia. Ora era uma caixa que tinha sido pertença da Rainha D. Amélia, ora a bengala com cabo de prata que tinha pertencido a Salazar nos últimos anos de vida e até uns castiçais de prata lavrada que tinham iluminado Camilo de Castelo Branco enquanto escrevia o Amor de Perdição. Cada peça, por mais simples que fosse, era um tesouro na sua boca. A Micas era uma mulher linda. Namorou quem quis e quantos quis, viajou, conheceu meio mundo e nunca se casou porque nunca se cansou de estar bem.
Quando um dia ficou sozinha, primeiro sem a criada velha e depois sem os pais, deu por si a sentir vontade de conhecer alguém com quem passar o resto da sua vida. Casou-se já depois dos quarenta. Separou-se ainda antes dos cinquenta. Novamente sozinha e de bem consigo, olhou a sua loja com orgulho e percebeu que continuava a chamar-se “Loja de Antiguidades”, tal como no tempo do pai e depois, durante todo o reinado da mãe. Deitou mãos à obra e entre tralha e mais tralha, encontrou um latão velho com letras de douradas. “Coisas do Arco-da-Velha”, dizia o velho latão.