A dois dedos da poesia, a um palmo do infinito.
Íntima vigília, esta, em que fecho os olhos à noite e todos os ca-
melos passam pelo buraco da agulha.
Um arcebispo salta de uma nuvem para olhar-me nos olhos qua-
se pardos, palermas e sem dom. Na imensa árvore da madrugada
os ramos estão desiludidos, fatigados, cheios de remorso.
O arcebispo meneia-se, vestido de branco, maduro e pobre.
Pobre arcebispo, maduro e pobre, que se meneia vestido de bran-
co, era o que eu deveria pensar, mas não é o que eu penso. Evita-
-me um pensamento desses, o orgulhoso pássaro matutino que
vem vindo, voando e vindo, lindo, lindo, lindo.
Ó pássaro da manhã, pássaro de amanhã, pássaro misterioso que
regressas ao ninho sobre o fio das minhas pálpebras. Sabes como
eu amo as tuas asas, como eu invejo as tuas asas, como as tuas
asas são as dos homens que não querem estar sozinhos. Quando
te vejo, o meu coração tem o tamanho de um menir, e o meu cor-
po quase não se sente. Sobre os meus ombros permanece o des-
lumbramento. Porque nenhum dos dias é igual a outro. E a minha
felicidade, a minha imensa felicidade, está a dois dedos da poesia
e a um palmo do infinito.
in ANO COMUM, Litexa, 2011.
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