Poema CXIV

Abri a porta e não havia espaço. Alguém tinha posto ali uma montanha. Não em frente, mas ali mesmo. A três, quatro metros iniciava-se uma encosta e só saindo a porta se podia ver o cume. Quer isto dizer que agora vejo a vida de outra forma? Que apenas depois de sair de mim poderei sobreviver ou resgatar-me? Ou quer dizer que me sinto sem saída e que terei de transpor uma montanha para atingir a liberdade que só pode alcançar-se do outro lado? Não sei. Gostava de chegar a tempo de conhecer a resposta. Nem poderei dizer: "não me interessa", ou "para quê pensar nisso", ou ainda: "tudo não passou de um sonho, agora acordaste, Joaquim, pára com essa conversa outra vez". Se te dói alguma coisa, não páres, continua porque tudo é doloroso a começar pela dúvida. Tens expectativas, todos os palermas têm expectativas, alguma coisa tens de fazer mesmo que nada tenha resultado nas últimas cinco vezes. Respira, se quiseres respirar, com a coragem de quem assina um papel em branco e cuida da tua alma como um enfermeiro ou um técnico de manutenção. Eu também sei que não temos de fechar os olhos e partir, porque nos podemos escolher a nós mesmos, o que pode ser doloroso mas não é difícil, e temos de tentar, temos sempre de tentar agarrar a felicidade porque ela não chega quando nós menos esperamos, mas quando nos esforçamos e queremos muito que ela chegue. Quando não estás pronto, nada resulta. Até o amor é como um sapo sempre de um lado para o outro, carregando o que de mais sujo e feio existe em nós. Procura então com coragem uma forma de não entrares à socapa e ficares a assistir. O truque está em saber ver a diferença. Não queiras permanecer no mesmo sítio a cantar a mesma canção sem ir a lado algum. Desse modo nada importará, porque o que realmente importa, já nem te apetece procurar. E se investires muito nas perguntas e pouco nas respostas, serás um mendigo que tudo tem e nada possui. Não dobres a medo o cabo dos trabalhos, porque a tua memória é líquida mas não se lembra daquela luz que se esconde na água, nem sabe de que lado é a nascente dos pássaros que poisam nos sentidos das coisas que regressam. Se quiseres falar, eu estou aqui. No território onde podes contar coisas em que ninguém acredita e onde eu posso deixar os meus versos àqueles que não gostam de poesia. Não continues especialista em envergonhar-te perante ti mesmo. Precisas de uma vida nova, de uma mudança séria que não deixe tudo outra vez como estava vinte e quatro horas antes. Como é que isto soa na tua cabeça? Enquanto fores vivo podes aprender, mas não exijas perfeição em nada. O que é fabuloso continuará a sê-lo enquanto pensares que o é. Tudo está em ti sempre prestes a partir, mas a tua galinha poderá ser muito maior e mais gorda que a dos teus vizinhos. Uma família é um abraço. Estende o pensamento para os teus. Para a tua aldeia. Para o mundo. És uma criança, não podes lutar contra outras. Se o fizeres, não vais querer parar. E a seguir não vais poder respirar. Continua a ser o teu braço direito, e lembra-te de que há coisas que não podemos deixar de discutir. E que há outras de que nunca queremos saber. Desejamos firmemente um tratamento especial mas por vezes a vida dá passos muito grandes, demasiado grandes para que possamos acreditar, e o normal nunca será normal se te sentires anormal. A culpa é como uma mãe, autêntica, sempre a querer colar-se a nós e a lembrar-nos o que não deveríamos ter feito, como se todos os dias fossem véspera de Natal. E se Jesus ressuscitou, por que não ter, ao menos, expectativas? Como te disse, até os palermas têm expectativas, mas deixa lá, pode até acontecer que abras a porta e não vejas a montanha ou que, sequer, isso tenha, afinal, algum significado. De qualquer modo, também gostei de falar contigo. in O POUCO É PARA ONTEM, Litexa Editora, 2008.

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