Poema CXIV
Postado por: Sônia Naranjo - segunda-feira, 14 de maio de 2012
Abri a porta e não havia espaço.
Alguém tinha posto ali uma montanha. Não em frente,
mas ali mesmo. A três, quatro metros iniciava-se uma encosta
e só saindo a porta se podia ver o cume. Quer isto
dizer que agora vejo a vida de outra forma? Que
apenas depois de sair de mim poderei sobreviver ou resgatar-me?
Ou quer dizer que me sinto sem saída e que
terei de transpor uma montanha para atingir a liberdade
que só pode alcançar-se do outro lado? Não sei.
Gostava de chegar a tempo de conhecer a resposta.
Nem poderei dizer: "não me interessa", ou "para quê pensar nisso",
ou ainda: "tudo não passou de um sonho,
agora acordaste, Joaquim, pára com essa conversa outra vez".
Se te dói alguma coisa, não páres, continua
porque tudo é doloroso a começar pela dúvida. Tens
expectativas, todos os palermas têm expectativas,
alguma coisa tens de fazer mesmo que nada tenha resultado
nas últimas cinco vezes. Respira,
se quiseres respirar,
com a coragem de quem assina um papel em branco e cuida
da tua alma como um enfermeiro ou um técnico de manutenção.
Eu também sei que não temos de fechar os olhos e partir,
porque nos podemos escolher a nós mesmos,
o que pode ser doloroso mas não é difícil,
e temos de tentar, temos sempre de tentar
agarrar a felicidade porque ela não chega quando nós menos
esperamos, mas quando nos esforçamos e
queremos muito que ela chegue. Quando
não estás pronto, nada resulta. Até o amor é como um sapo
sempre de um lado para o outro, carregando o que
de mais sujo e feio existe em nós. Procura então com coragem
uma forma de não entrares à socapa e ficares a assistir.
O truque está em saber ver a diferença.
Não queiras permanecer no mesmo sítio
a cantar a mesma canção sem ir a lado algum.
Desse modo nada importará, porque o que realmente
importa, já nem te apetece procurar.
E se investires muito nas perguntas e pouco nas respostas,
serás um mendigo que tudo tem e nada possui.
Não dobres a medo o cabo dos trabalhos, porque
a tua memória é líquida mas não se lembra
daquela luz que se esconde na água, nem sabe
de que lado é a nascente dos pássaros que poisam
nos sentidos das coisas que regressam.
Se quiseres falar, eu estou aqui.
No território onde podes contar coisas em que ninguém acredita
e onde eu posso deixar os meus versos àqueles que não
gostam de poesia. Não continues
especialista em envergonhar-te perante ti mesmo. Precisas
de uma vida nova, de uma mudança séria que não deixe
tudo outra vez como estava vinte e quatro horas antes.
Como é que isto soa na tua cabeça?
Enquanto fores vivo podes aprender, mas
não exijas perfeição em nada. O que é fabuloso
continuará a sê-lo enquanto pensares que o é. Tudo
está em ti sempre prestes a partir, mas a tua galinha
poderá ser muito maior e mais gorda
que a dos teus vizinhos.
Uma família é um abraço.
Estende o pensamento para os teus.
Para a tua aldeia. Para o mundo.
És uma criança, não podes lutar contra outras. Se o fizeres,
não vais querer parar. E a seguir
não vais poder respirar. Continua a ser
o teu braço direito, e lembra-te de que há coisas
que não podemos deixar de discutir. E que há outras
de que nunca queremos saber. Desejamos firmemente
um tratamento especial mas por vezes a vida dá passos muito
grandes, demasiado grandes para que possamos acreditar,
e o normal nunca será normal se te sentires anormal.
A culpa é como uma mãe, autêntica,
sempre a querer colar-se a nós e a lembrar-nos o que
não deveríamos ter feito, como se todos os dias
fossem véspera de Natal.
E se Jesus ressuscitou,
por que não ter, ao menos, expectativas?
Como te disse, até os palermas têm expectativas,
mas deixa lá,
pode até acontecer que abras a porta e não vejas a montanha
ou que, sequer, isso tenha, afinal, algum significado.
De qualquer modo,
também gostei de falar contigo.
in O POUCO É PARA ONTEM, Litexa Editora, 2008.
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