DOIS TEMPOS QUE PRECEDEM O MOMENTO

Os cabelos esvoaçavam como as velas duma nau. Nesse fim de tarde, ele afastou aqueles fios finos e sedosos do seu rosto redescobrindo o caminho da sua pele até à boca. Apertou-a nos braços e no coração. Ela, na ansiedade de lhe tocar, sentiu o sangue querer rebentar-lhe com as veias. Falavam-se assim… de olhos fixos e corpos presos, não trocavam uma só palavra, abraçavam-se, abraçavam-se até ficarem vincados no corpo um do outro. Deram outro beijo, as costas tocaram-se e seguiram caminhos opostos. Já longe, ele colocou as mãos em forma de concha na boca e gritou: «AMO-TE!» Ela sentiu a força da palavra trazida pelo vento e repetida mil vezes pelo eco, ergueu o braço como se a quisesse agarrar. … Passaram muitas estações do ano, muitas fases da lua, e ela não usava já os cabelos compridos, soltos e livres ao vento, o rosto ostentava a entrada do outono mas mantinha aquele sorriso de mar e o olhar penetrante das águias-reais, tinha o coração fechado no peito e as chaves penduradas naquele dia longínquo de primavera. Caminhava devagar, escolhia com precisão os pequenos regos deixados na planície pelo arado como se levitasse para não pisar as frágeis flores naquele mar de cores. Ao longe, um vulto caminhava na sua direcção, era ainda um vulto indefinido mas ia criando forma à medida que se aproximava dela. Percebeu que trazia na mão um ramo de flores mas não eram umas flores quaisquer e de repente reconheceu aquele rosto… era ele. Numa impulsividade desmedida, correu campo fora de braços abertos e a gritar contra o vento. Deram um abraço forte na falta dos mil abraços que perderam e rebolaram por cima das pequenas flores silvestres presos num único e demorado beijo. Falaram dos desenhos que as nuvens fazem no céu, das joaninhas e da chuva que tardava. Ficaram de peito arfante deitados em cima do mar de flores e os olhos percorreram o azul infinito do céu. Adormeceram e acordaram no tempo passado, ele procurou-lhe a mão, apertou-a com ternura e disse: «jamais esquecerei este dia», ela ergueu-se, deu-lhe um beijo no rosto e sorriu. Olharam para longe na direcção da árvore centenária que tão bem conheciam, abraçaram-se e caminharam na sua direcção, no tronco majestoso ainda se conseguia ver um coração desenhado com um canivete. Recordaram o tempo do namoro e da promessa que aquele coração ali desenhado iria crescer à medida que a árvore se aproximasse do céu, tal como o amor que sentiam… infinito. Ele encostou-se ao tronco e olhou-a de frente com um sorriso nos lábios, ela parecia coberta por aquele tecido fino e macio que envolve o amor. Silenciosa, aproximou-se e procuraram nos olhos o naufrágio um do outro. Acariciou-lhe o cabelo agora mais curto, por cima pairava uma auréola, era o reflexo da madrugada. Tocaram novamente os lábios e com a ponta da língua saborearam as bocas que sempre souberam de cor. Ele tocou-lhe os seios num afago. «Queres-me…?», disse ela. «Sempre…», respondeu-lhe.

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