CONCEITOS E ATITUDES

A noite chega por entre os últimos instantes do dia e os meus pensamentos gravitam alvoroçados. Ainda faço um gesto para os agarrar, trazê-los de novo a mim, mas a espiral em que se encontram é tão forte que os desintegra e envia para lá do fim. Cruzo as pernas enquanto olho para o caderno onde quero escrever, desenho algumas palavras, algumas ideias incertas que me servirão de guia. O tempo não pára, a vida lá fora continua a sua azáfama, continua a girar a um ritmo vertiginoso. É em momentos como este, nesta razão oblíqua, que me apercebo da inevitabilidade do ser. Revejo o passado e as marcas ainda frescas que pernoitam em mim. Não sei o que custa mais passar, se o dia se a noite, sei apenas que nestas questões impera a minha pequenez. Quem me dera ter nascido borboleta, como essas que tantas vezes descrevo, ter asas e perder-me no azul do céu. Ter asas é poder alcançar sonhos, é viver para além da vida, seria tornar-me imortal e projectar tudo quanto habita em mim. Gostava de ter esse dom para poder superar todos os obstáculos que aparecem com a chegada das estrelas. Há quem percorra diariamente a estrada da vida com o intuito de cobiçar terceiros, debater vidas alheias, criticar condutas e opiniões. Socorrem-se de artimanhas de forma a esconder os defeitos que possuem. Há quem grite e bata com a mão no peito mas mais não faz que percorrer os labirintos da vida. Por vezes e já tarde de mais se apercebem que o arquitecto de tal labirinto se esmerou a construir vários caminhos dos quais apenas um permite chegar às mais belas cores. Talvez eu viva numa permanente utopia, viva em busca do desconhecido, da liberdade, da esperança, por isso julgo que a utopia é o motor da nossa existência. Procuramos de maneira desenfreada a felicidade, deparamo-nos com inúmeros obstáculos e os olhos enchem-se de lágrimas como se estas, de alguma forma, extinguissem a chama que arde em nós. Quantas vezes temos de perder para entender que o fruto mais doce é o que cai ao chão. Em certas circunstâncias, é preferível viver a pensar num sonho do que enfrentar a possibilidade sempre presente de ele não dar certo enquanto concreto. Neste mundo há um tempo para tudo, tempo para as palavras e para o silêncio. Quando nada mais fazemos do que repetir palavras, o que nos resta é o sossego, a sombra, a quietude. O silêncio não encobre, não omite, não ilude.

0 comentários:

Postar um comentário