O MEU INIMIGO

Não matarei o meu inimigo. Ele sofre como eu e caminha por um caminho verde entre os meus olhos. Não matarei o meu inimigo nem com as mãos nem com o machado. Juro que não desfecharei o tiro piedoso ou vingativo no seu coração nocturno. Não quebrarei as suas pernas nem amputarei seus braços. Nem muito cedo abandonarei seu corpo à chuva para lavar seu ódio sobre a areia vermelha. Não deixarei que o seu olhar apodreça depois da agonia no chão onde tombaram as estrelas fatigadas desta noite ao contrário. Não, não quero estender meus dedos para cerrar as suas pálpebras. Eu não sou inimigo do meu inimigo. Quero acolhê-lo em minha casa. Sacrificarei por ele o meu vitelo. Acenderei o fogo e pela terceira vez o servirei. Não utilizarei nem a força nem a manha contra o meu inimigo nem serei altivo. Antes o sossegarei. O meu coração guardará a sua impaciência. As minhas mãos honrarão a sua rivalidade. Os meus cães respeitarão a sua coragem. Pedir-lhe-ei que se sinta como em sua própria casa. Não lhe esconderei nem as minhas armas nem a minha ternura. Propor-lhe-ei novas palavras sem lhe exigir sequer um juramento. Escolherei o melhor vinho e por ambos levantarei o meu cálice. Quando o meu inimigo sair não mandarei seguir seus passos pelo caminho estreito mas esperarei que regresse com o fulgor das suas armas. Esperarei que venha despedaçar a minha porta devastar a minha casa apagar o meu fogo derramar o meu vinho mutilar o meu corpo entregar meus olhos aos meus próprios cães. Ou simplesmente que o meu inimigo impiedoso de novo queira descansar sob o meu tecto. in 125 POEMAS, Antologia Poética, Litexa Editora, 3ª ed., 1986.

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