O MEU INIMIGO
Postado por: Sônia Naranjo - quinta-feira, 17 de maio de 2012
Não matarei o meu inimigo.
Ele sofre como eu
e caminha
por um caminho verde entre os meus olhos.
Não matarei o meu inimigo nem com as mãos
nem com o machado. Juro que
não desfecharei o tiro piedoso ou vingativo
no seu coração nocturno.
Não quebrarei as suas pernas
nem amputarei seus braços.
Nem muito cedo abandonarei seu corpo
à chuva
para lavar seu ódio
sobre a areia vermelha.
Não deixarei que o seu olhar apodreça
depois da agonia
no chão onde tombaram as estrelas fatigadas
desta noite ao contrário.
Não, não quero estender meus dedos
para cerrar as suas pálpebras.
Eu não sou inimigo do meu inimigo.
Quero acolhê-lo em minha casa.
Sacrificarei por ele o meu vitelo.
Acenderei o fogo
e pela terceira vez o servirei.
Não utilizarei nem a força nem a manha
contra o meu inimigo nem
serei altivo. Antes
o sossegarei.
O meu coração guardará a sua impaciência.
As minhas mãos honrarão a sua rivalidade.
Os meus cães respeitarão a sua coragem.
Pedir-lhe-ei
que se sinta como
em sua própria casa.
Não lhe esconderei nem as minhas armas
nem a minha ternura. Propor-lhe-ei
novas palavras sem
lhe exigir sequer um juramento.
Escolherei o melhor vinho
e por ambos
levantarei o meu cálice.
Quando o meu inimigo sair
não mandarei seguir seus passos
pelo caminho estreito
mas esperarei que regresse com
o fulgor das suas armas.
Esperarei que venha despedaçar
a minha porta
devastar a minha casa
apagar o meu fogo
derramar o meu vinho
mutilar o meu corpo
entregar meus olhos
aos meus próprios cães.
Ou simplesmente
que o meu inimigo impiedoso
de novo queira descansar
sob o meu tecto.
in 125 POEMAS, Antologia Poética,
Litexa Editora, 3ª ed., 1986.
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