BALADA DE DESESPERO E DE ESPERANÇA

Olha a filha que dorme, enroladinha na sua cama. Com que sonhará ela? Parece tão tranquila, tão distante da realidade. Mas graças a Deus que assim é. Tem tanto tempo para se aperceber de que a vida não é o teatro que ela todos os dias lhe representa, para que não se aperceba de quanto sofrimento a acompanha constantemente. Quando ficou grávida e se viu sozinha, porque o namorado voltou para a mulher quando soube, pensou até em acabar com a vida. Chegou a fechar-se na casa de banho com uma caixa de comprimidos para dormir, mas, ao último momento, faltou-lhe a coragem. Quem sabe os pais não a perdoavam? Mas tinha medo da reacção do pai, que era homem muito arreigado a tradições e muito católico e com a mãe, sabia que não podia contar, caso o pai a não aceitasse. A mãe temia o pai ainda mais do que ela. Mesmo assim, resolveu arriscar. Todo o dia esteve fechada no quarto à espera de coragem para contar aos pais, mas a verdade é que não podia deixar correr mais tempo. Estava de três meses, a barriga começava a arredondar e os peitos a tornarem-se mais salientes. As raparigas que trabalhavam com ela na fábrica constantemente lhe diziam que ela estava a ficar mais gorda e a mãe, que não era parva, um dia em que a apanhou sozinha, disse-lhe que ela estava com cara de grávida e rematou logo a conversa dizendo: - Vê lá o que andas a fazer, olha que o teu pai dá cabo de ti e de mim também. Se isso te acontecer, mais vale desenrascares-te… Ela encolheu os ombros, fingindo não se importar, mas quase morreu com as palavras da mãe e eram essas as palavras que lhe martelavam na cabeça.Voltou a olhar para a filha e os olhos encheram-se de lágrimas. Como pôde ela sequer chegar um dia a pensar em “desenrascar-se”? Amava aquela menina mais do que tudo na vida. Havia dias em que a sua vontade era desistir de tudo, ou então adormecer e só acordar quando todos os seus problemas estivessem resolvidos mas, sabia que isso era impossível. Por ela mantinha 2 empregos. Trabalhava das sete da manhã às 2 da tarde, num café e depois ainda ia trabalhar a dias, em casas onde passava a ferro. Quando contou aos pais que estava grávida, a mãe sentou-se à mesa da cozinha com a cara escondida nas mãos, como se estivesse cheia de vergonha. O pai esbofeteou-a, chamou-lhe rameira e deu-lhe um mês para que saísse de casa, antes que a barriga se começasse a notar. E era aquele o homem que ia à missa todos os domingos e que batia com a mão no peito enquanto dizia “ perdoai-nos as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido”… Chorou toda a noite. Não sabia o que fazer à vida. E, mais uma vez, pensou em acabar com tudo. Mais uma vez a coragem lhe faltou. Tinha um mês para encontrar uma solução. Durante esse mês, o pai não lhe falou e todos os dias marcava no calendário que tinha na cozinha, os dias que faltavam para que ela se fosse embora. A mãe só lhe falava quando o pai não estava presente e constantemente lhe dizia que o melhor era ela ir à parteira lá da terra, que era mulher de guardar segredo e que havia de a ajudar a desenvencilhar-se. Ela, então, deixava-a a falar sozinha e fechava-se no quarto à espera de um milagre, sabendo perfeitamente que não havia milagres. Os dias passaram céleres e uma noite de Inverno, quando chegou a casa depois de um dia de trabalho na fábrica, tinha duas malas e um saco à porta com todos os seus pertences. Sentou-se à porta, ao frio e chorou. Acabou por dormir enroscada no celeiro que havia ao fundo do quintal e que, por acaso nessa noite, não estava fechado. Mas não foi por acaso. Quando entrou, encontrou um termo com comida, umas mantas de papa e um bilhete escrito pela mãe, com uma letra rude e quase infantil, porque a instrução era pouca, onde lhe dizia que, como o pai raramente ia ao celeiro, que ficasse por lá mas que saísse bem cedo de manhã e voltasse bem de noite, para ele não dar pela sua presença. Afinal, a mãe tinha coração, só que o medo que tinha do pai sobrepunha-se à vontade de a ajudar. Às 6 da manhã, já estava fora de casa, para que o pai não a visse e só voltava quando a noite já tinha caído. Ficava na fábrica até mais tarde, a trabalhar, sem que lhe pagassem nem mais um cêntimo. Mas o tempo não parava e a barriga estava cada vez maior. Um dia, o capataz chamou-a lá dentro, porque lhe queria falar. Pensou que talvez lhe fossem dar mais algum dinheiro, por todos os dias ser a última a sair mas, em vez disso, o capataz insinuou-se a ela e disse-lhe que não a despedia, se ela aparecesse ali sempre que ele a chamasse e se ela fosse “boazinha” com ele. O desespero foi tal que lhe bateu com uma tábua que estava no chão e o deixou a sangrar. No dia seguinte, estava desempregada. Felizmente tinha algum dinheiro, o que lhe permitia viver sem trabalhar durante alguns meses, desde que pudesse continuar a dormir no celeiro. Quem é que lhe dava emprego agora? Solteira, à espera de um filho e numa terra pequena onde toda a gente a conhecia, mas onde ninguém a ajudava. Em desespero, recorreu ao padre lá da terra. Afinal não eram os padres os representantes de Deus na terra? Se o eram, a sua missão era perdoar a quem tinha errado e ajudar quem precisava. O padre recebeu-a de cara fechada e com lições de moral, como se ela fosse a única pecadora ao de cima da terra. Não foi Cristo quem disse “quem nunca pecou que atire a primeira pedra”? Contrariado, lá resolveu ajudá-la. Uma prima sua tinha uma pessoa conhecida que tinha um café lá para os lados da serra e que precisava de ajuda, podia lá ficar e assim evitar falatórios na aldeia. De manhã cedo lá partiu de autocarro, com duas malas na mão, uma carta de recomendação para a prima do Sr. Padre e uma criança a mexer-lhe nas entranhas. Nesse dia, apaixonou-se pela criança e a ideia que tinha de acabar com a vida afastou-se para sempre da sua cabeça. Agora, queria viver. Por ela e pela criança que lhe pulava no ventre e que não tinha pedido para nascer. Já no autocarro, e com as duas mãos sobre a barriga, num jeito de mãe protectora, começou a sonhar com uma vida nova. Afinal estava em 1980, não era a primeira mãe solteira e não seria a última. A filha acordou. Era tão bonita. Tinha ficado com os olhos verdes do pai e com os caracóis negros da mãe. Era uma mistura lindíssima. Um abraço apertado começou o dia das duas. Era como se esse abraço lhe desse forças para suportar as agruras do dia. Agora era vesti-la, dar-lhe sopinhas de leite como ela gostava e deixá-la entregue à D. Piedade, a prima do Sr. Prior, que se tinha revelado uma santa. No ano seguinte, a sua Estrelinha já ia para a escola primária e era altura de começar a procurar uma casinha para si e para a filha, para terem o seu próprio espaço. Mas nunca, nunca iria conseguir pagar à D. Piedade o bem que esta lhes tinha feito. Depois, lá ia para os seus dois empregos, regressando só ao cair da noite, para aí sim, dar toda a sua atenção à filha. Ganhava pouco, mas como a D. Piedade não lhe levava nada do quarto, nem de lhe olhar pela filha, todos os meses conseguia pôr um dinheirinho de parte. Olhou-se ao espelho. Estava com trinta anos. Era nova e tão velha… Vivia unicamente para a filha e para as horas de trabalho. Não sabia o que era ter um namorado nem queria, se bem que às vezes sentia saudades de um abraço apertado, de um beijo carinhoso… Beijou a filha, pediu-lhe para que se portasse bem e partiu para a sua luta diária. Quando chegou à direcção indicada pelo Sr. Prior, foi recebida por uma mulher forte e toda vestida de preto, que se apresentou como D. Piedade. Não era de grandes sorrisos, mas gostou logo dela. Tinha um ar de quem necessitava de alguma atenção e carinho. A casa era grande e antiga e precisava de alguns arranjos. Mesmo assim era confortável e estava quentinha, apesar do vento cortante que assobiava por entre as árvores que enfeitavam a serra. - Com que então estás grávida e não tens pai para o teu filho? Tudo se há-de arranjar. Segunda-feira começas a trabalhar no café do Almeida. Podes cá ficar em casa. Estou viúva há seis anos e um pouco de companhia vai fazer-me bem. Depois encaminhou-a para um quarto pequeno, mas confortável, que tinha ao lado da cama um pequeno berço de verga. Comoveu-se com o que viu. - Este berço era para o filho que nunca tive. Há muitos anos julguei que estava grávida. Cresceu-me a barriga, ganhei leite nos seios mas, afinal, era uma brincadeira da natureza. Depois disso, tive de fazer uma operação. Nunca mais pude ter filhos… Nesse momento, nasceu uma verdadeira amizade entre as duas, apesar de não serem de grandes manifestações de afecto. Quando a filha nasceu, a D. Piedade foi a madrinha e quem a baptizou foi o padre da sua aldeia, mas muito contrariado. Se não fossem os sermões que a D. Piedade pregou ao seu primo padre, a Estrelinha teria ficado sem ser baptizada. A filha chamava-se Madalena, mas como a D. Piedade dizia que os olhos dela pareciam estrelas, depressa se habituaram a chamar-lhe Estrelinha. Chega a casa às sete e meia. É Inverno. Faz frio. Vem desejosa pelo abraço de filha e pela sua vozinha de passarinho quando lhe pergunta ao ouvido se lhe trouxe um chocolate. Anseia pela hora em que se entende na cama porque há doze horas que está de pé sem se sentar, senão o bocadinho que pára para almoçar e mesmo assim, levanta as mãos para o céu porque a aguarda um quartinho confortável e um jantar que a D. Piedade lhe oferece, porque desde que a Estrelinha nasceu, que não lhe leva um tostão, nem a deixa contribuir para as despesas da casa. É por isso que tem um pezinho de meia jeitoso. O Sr. Prior continua a dizer à prima que é uma exploração, que a prima lhe devia levar dinheiro. Que se ela trabalha, bem que pode pagar. E diz isto tudo à sua frente. A D. Piedade manda-o calar e diz-lhe para ficar descansado que a reforma do major, dá bem para as despesas da casa e que ainda sobra todos os meses algum para pôr de parte. O Sr. Prior sai lá de casa depois de um riquíssimo jantar todos os domingos, com cara de poucos amigos, porque se sente lesado, uma vez que é o parente mais próximo da D. Piedade e sabe que vai ser seu herdeiro. Foi por isso que deixou de ser cliente da igreja. Continua a acreditar em Deus, já nos padres… Quando a Estrelinha nasceu a mãe foi visitá-la apesar do pai a ter proibido. O pai nunca mais quis saber dela apesar das cartas e das fotografias de ambas, que a D. Piedade lhe mandava. Chegou mesmo a dizer-lhe um dia: - Credo, o teu pai no lugar do coração deve ser uma pedra. Onde já se viu um avô não querer conhecer uma neta tão linda? É burro e olha que a tua mãe não é melhor do que ele, desculpa que te diga… Doía-lhe tanto ter de lhe dar razão mas a verdade, é que já se habituara à ausência de ambos e passavam-se dias e dias sem sequer pensar neles. Mas agora o que lhe andava a pesar na consciência, era ter de dizer à D. Piedade que tinha chegado a hora de arranjar uma casinha para ela e para a filha. Não podia continuar o resto da vida a viver às custas da D. Piedade e a ouvir constantemente o Sr. Prior a dizer que ela explorava a prima. Mas numa noite em que chegou a casa com o texto todo na sua cabecinha para falar com a D. Piedade sem a melindrar, encontrou uma ambulância à porta e viu a filha ao colo de uma vizinha a chorar. O coração quase lhe saiu pela boca. A D. Piedade tinha tido um ataque de coração e tinha morrido no chão da cozinha enquanto a Estrelinha assistia assustada. A vizinha do lado ouvindo os gritos da pequena, correu em seu auxílio e deu com aquela tragédia. O Sr. Prior chegou 2 horas depois. Já a D. Piedade estava amortalhada dentro de um caixão preto ornamentado de rendas e cetins, no meio da casa de jantar. Depois no funera,l no outro dia e depois de voltarem a casa, o padre disse que precisava de lhe falar. Sem rodeios foi direito ao assunto e deu-lhe uma semana para sair dali porque queria pôr a casa à venda o mais rápido possível para, segundo ele, dar o dinheiro à paróquia lá da terra que estava muito precisada. Voltou a ter um prazo para sair de casa. Primeiro o pai, agora o padre. E mais uma vez se entregou a Deus e odiou os homens que apregoavam o bem sem o fazerem. Não era fácil numa semana encontrar uma casa, mas não havia dúvidas que Deus estava do seu lado. Ali pertinho havia uma casa para arrendar. O problema sério era onde ia deixar a filha, já que trabalhava doze horas por dia. O ano lectivo ia a meio e já não aceitavam ninguém na creche naquela altura do ano. Além disso, a Estrelinha estava tão triste com o morte da D. Piedade, que a vontade que tinha era de não ir trabalhar para poder ficar com a filha. Mudou para a casa com a ajuda dos vizinhos que aprenderam a gostar daquela menina que um dia tinha ali chegado com um filho na barriga e sem um pai para lhe dar. Todos se mobilizaram e todos contribuíram com um pouco do seu pouco. Ao fim do dia a casinha estava montada com um bocadinho de cada coisa. Aos poucos iria compondo a casa. O mais importante nesse dia, foi que uma das vizinhas se prontificou a ficar com a Estrelinha a troco de uma pequena mensalidade. Não podia recusar. Tinha de trabalhar para poder pagar a renda e todas as despesas que uma casa acarretava e depois, o seu ordenado era tão baixo, que não ia ser fácil. E assim no outro dia retomou a sua rotina. De manhã bem cedo lá foi de coração apertadinho entregar a filha à vizinha, de lágrimas nos olhos mas agradecendo a Deus por não a ter abandonado. Um abraço apertado foi dado entre mãe e filha. A pequena não ficou muito triste e isso de alguma maneira aliviou-a. Quando ao fim do dia chegou a casa, esperava-o um senhor de gravata, à porta. Disse-lhe que era advogado e que precisava de falar com ela. Por instantes lembrou-se que a filha tinha um pai e que podia ser ele a quer a filha agora que já estava crescidinha. Mas logo o advogado a tranquilizou dizendo-lhe que daí a uma semana seria aberto o testamento da D. Piedade e que ela, tal como o Sr. Prior, eram seus herdeiros. Nem quis acreditar. As pernas fraquejaram-lhe e teve de se sentar para retemperar as forças. Como raio ia ela agora aturar o padre? Já sabia que ia ser acusada de ter enganado a D. Piedade. Mas depois pensou que talvez fossem só os brincos de ouro que ela tanta vez lhe tinha gabado. No dia marcado apresentou-se no escritório do advogado o Sr. Prior já lá estava. Estava com má catadura. Era sinal de que já sabia que ela também era herdeira. Apesar dos protestos da Sr. Prior não havia nada a fazer. A D. Piedade tinha deixado à sua afilhada a casa com todo o recheio e 1.000 contos para ficarem a render e assim assegurar os estudos da pequena. O Sr. Prior ficou com umas terras lá para o meio da serra e uma avultada quantia de dinheiro. Só quando viu a quantia de dinheiro que lhe tinha sido deixada pela prima Piedade, é que esboçou um ligeiro sorriso ao advogado. Depois, saiu sem sequer se despedir. Mais uma vez foram os amigos que lhe valeram. Com a ajuda de todos voltou para a casa que agora era sua. E filha estava radiante. Aquela sempre tinha sido a sua casa. Estavam de regresso. A filha dorme enroladinha na sua cama. Tem um sorrisinho de felicidade no seu rosto de princesa adormecida. A mãe aconchega-lhe a roupa e senta-se ao pés da cama a contemplá-la. É tão linda com as estrelinhas verdes nos olhos e os caracóis pretos e desalinhados sobre o rosto. Havia ainda tanto caminho para percorrer. Muitos problemas iriam surgir, ela sabia bem disso, mas quem já tinha sido expulsa de casa dos pais, quem já tinha dormido no rigor do Inverno num celeiro frio e desconfortável, quem já tinha sido enganada e abandonada pelo homem que amava, bem podia suportar o que quer que viesse. Começava agora a sonhar que um dia ainda ia ser feliz porque merecia e porque enroladinha na sua cama, dormia o melhor que a vida lhe tinha dado. Deitou a cabeça na almofada e apesar de saber que no dia seguinte a esperava muito trabalho, agradeceu a Deus tudo o que tinha e pediu-Lhe para que a deixasse continuar a sonhar. “Há quem diga que todas as noites são de sonhos. Mas há também quem garanta que nem todas, só as de Verão. No fundo, isto não tem muita importância. O que interessa mesmo não é a noite em si, são os sonhos. Sonhos que o homem sonha sempre, em todos os lugares, em todas as épocas do ano, dormindo ou acordado.” (William Shakespeare)

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