VIDA DE CÃO
Postado por: Sônia Naranjo - segunda-feira, 21 de maio de 2012
Morreu ali.
Sozinho, de olhar vazio, perdido no céu, que já escurecia.
Sempre pedira a Deus para que quando chegasse a sua hora, tivesse uma mão a segurar a sua. Nem que fosse a mão de um desconhecido…
Mas não. Tinha morrido sozinho. Só o cão, que há mais de um ano o acompanhava pelas ruas, enquanto pedia esmola, permanecia a seu lado. O olhar triste e humedecido do cão a quem tinha posto o nome de Anjo, por ser todo branco e por o ter socorrido, num dia em que era perseguido por um grupo de rapazes que o apedrejavam, tendo-se atirado a eles.
Aquele foi o seu mais fiel amigo. Com ele dividia a fome, o frio e até as saudades de tempos idos e em que tinha sido feliz, sem o saber e sem sequer dar valor a essa felicidade.
Enquanto o seu corpo se apagava no frio da noite, como a chama de uma vela, à qual faltava o oxigénio para poder brilhar, lembrava a sua vida e parecia-lhe que não era sua. Apenas um filme do qual tinha sido mero espectador.
O “Anjo”, chegou-se a ele como que adivinhado o frio que lhe percorria o corpo e lambeu-lhe a mão, em sinal de gratidão eterna.
Aquele tinha sido o melhor dono que tinha tido, ou melhor dizendo, o único, porque cedo se viu abandonado por um dono que sempre o mal tratou, acabando por o abandonar numa estrada deserta, num dia de Inverno em que chovia e em que o frio lhe trespassava o pelo, indo alojar-se nos seus ossos ainda tão tenros. Comia o que podia, lixo principalmente, e algumas coisas que roubava aqui e ali porque a fome era muita.
Mas o pior de tudo, era a sede, quando o sol caia a pique e ele não tinha onde se abrigar. Se ele ao menos morresse…
Assim pensava o homem que estava deitado no passeio, ignorado pelos transeuntes, que o olhavam com dó, mas sem sequer lhe perguntarem se estava bem.
- Se eu ao menos morresse. Depressa…
Tinha dores no corpo todo e dificuldade em respirar e sentia falta de uma mão para agarrar. Não sabia o que o esperava do outro lado da vida. Sabia apenas que havia outro lado, porque a sua alma assim lhe segredara ao ouvido e ele acreditava em tudo o que a sua alma lhe dizia. A alma falava-lhe coisas através dos sonhos e vinha pela voz do seu cão, que ele não sabia como, mas percebia.
Quando tinha aqueles sonhos, em que a sua alma lhe falava através do seu cão, andava todo o dia bem-disposto, mesmo que nesse dia as esmolas mal dessem para um prato de sopa e dois pães com uma lata de atum, que dividia irmãmente com o Anjo.
Era como se acordasse mais leve ou apenas mais conhecedor da sua alma de poeta que amortalhara no dia em que perdera a mulher e mais tarde o emprego, tendo-se entregue ao desespero e depois à solidão das ruas, onde tinha conhecido gente de muito valor.
Pena que as pessoas rotulassem todos os que faziam da rua, a sua casa, de bêbedos ou de drogados. Não era bem assim. Também havia os infelizes, os amargurados e os que se tinham entregado nas mãos de Deus, e tinham deixado tudo para trás. Não tinha sido isso que Deus tinha pedido aos homens?
- Deixa a tua casa, a tua família, os teus haveres e segue-me!
Foi o que fez. Deixou a sua casa e os seus haveres, porque a mulher o tinha deixado, levada pela morte e foi procurar um Deus que não encontrava…
Voltou a sentir um aperto no coração, já tão fraco. Ainda pensou em levar a mão ao peito para tentar que ele não parasse de bater mas, não valia a pena. Estava cansado. Só tinha pena de deixar o Anjo sozinho. Tinha sido uma grande companhia. Logo ele que nunca tinha gostado nem de cães nem de gatos. Ironias da vida…
O Anjo levantou-se e ele teve medo que o cão o fosse abandonar, logo agora que ele estava de partida. Mas não. Apenas se deitou sobre ele como que a resguardá-lo da noite que começava a esfriar. Bom amigo, este Anjo.
- Pareces um Anjo da guarda. – disse baixinho, ao ouvido do cão, que parecia chorar por ele, tal era a dedicação.
Puxou para cima deles, conforme pode, a velha manta e encostou-se mais à porta do Edifício do Banco, de onde vinha algum quente do ar condicionado, que provavelmente tinha ficado ligado por esquecimento.
Mas ainda bem que assim foi. Sentia-se mais aconchegado pelo quentinho, que passava por baixo da porta.
Abraçou-se ao Anjo.
Sentiu que o fim estava próximo. Ou seria o princípio?
Morreu com a cara encostada à porta para que o calor o aconchegasse.
Quando percebeu a sua partida, o Anjo levantou-se de cima do homem e sentou-se a seu lado uivando à lua, que se rebolava no céu.
As pessoas passavam indiferentes à morte que se sentara no passeio, esperando que a alma do poeta se soltasse do corpo e o acompanhasse. Não teria de esperar muito. Há muito que ouvia o pobre homem chamar por ela.
Apressadas e com frio, as pessoas corriam ansiosas por chegarem a casa, jantarem e ficarem no aconchego da lareira ou do aquecedor, comodamente sentadas nos seus sofás, até serem horas de mergulharem os seus corpos quentes nas suas camas macias e adormecerem de mãos dadas com alguém.
O Anjo continuou a uivar como se ladrasse à morte, que já cortava uma esquina do céu, na companhia do seu dono.
O cão ficou deitado ao lado do corpo do homem da rua. Já não uivava. Chorava!
Uma menina passou pela mão da mãe.
-Mãe…olhe que cãozinho tão lindo. Parece um anjo.
A mãe parou, olhou para o cão, tentando esconder o desprezo ou nojo que sentiu pelo cão e pelo dono que estava deitado no chão, e disse-lhe:
- Anda Ritinha. O cão deve ser daquele drogado que está ali deitado no chão. Vamos embora que podem ser perigosos…
- Mas mãe…e se o senhor está morto?
- Está cá agora. Ou está drogado ou bêbedo. Vamos embora que está frio.
- Mas podemos levar o cãozinho para casa? Ele não está drogado nem bêbedo, pois não, mãe?
- Estás parvinha, Ritinha…
E lá seguiram as duas, a mãe a arrastar a filha, que se tinha virado para trás para dizer adeus ao Anjo.
Foi aí que a morte, que ainda olhava para baixo, viu o cão abandonar-se à tristeza e ao frio, enquanto chamava por ela.
Não teve outro remédio, voltou para trás e consigo levou o dono e o seu cão, para o lado de lá da vida.
Na terra, os homens continuavam entregues às suas vidas, ao seu egoísmo e a não escutarem o que as crianças dizem, pelo simples facto de elas serem apenas isso. Crianças!
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