CASOS OU ACASOS

Cruzámos os olhares a meio caminho entre o balcão e a parede do fundo da sala, detivemo-nos por breves instantes. O corpo dono daqueles olhos grandes e de um verde selvagem parecia ter-me escolhido e aproximou-se de mim. - Posso? – Os seus lábios mexeram-se levemente e um aceno de cabeça apontava em direcção do banco alto. Nem me deu tempo para lhe indicar o lugar ou levantar-me delicadamente, colocou um pé em cima do estribo circular que envolvia a parte de baixo do banco e sentou-se. - Sim! – Ainda consegui articular apesar de nada valer, e disse-o timidamente não conseguindo descolar os meus olhos daquele corpo esculpido com perfeição. Que intenção terá ao dirigir-se a mim? Sim! Com tantos lugares vazios… ficámos em silêncio à semelhança de toda a sala como se estivéssemos no ensaio geral duma peça de teatro. O relógio pendurado por cima da estante das garrafas tinha parado no momento em que ela se sentou, ou então fui eu que quis parar o tempo. Faltou um pouco do ritmo até então dado pelo tique-taque. Tudo se calou. Tinha tantas palavras a quererem sair da minha boca mas não fui capaz de articular nem um monossílabo. Encostei-me ao ferro frio do banco e o verde dos olhos dela parecia um prado em pleno mês de Maio. Do nada, surge a pergunta: - O gin daqui é bom? – Apontou para o meu copo com o mesmo sorriso de antes. - Gin? Não sei, isto é ginger ale, simples – e levantei um pouco o copo alto e fino. Retribuí o sorriso enquanto sentia o frio do líquido que trespassava o vidro. - Ginger ale? Mas isso é lá bebida que um homem beba num bar? Ainda por cima ao balcão? Havia qualquer coisa de irónico na expressão “… que um homem beba…”. Fixei-a novamente tentando ler-lhe nos olhos o que quereria dizer. Entretanto, cruzava as pernas cobertas por umas calças brancas e justas. - Não gosta de ginger ale? – pareceu-me que não me ouviu, agarrava o cabelo em mão cheia e depois soltou-o. O cabelo era liso, castanho e brilhante. Repeti – Não gosta? Não gosta de ginger ale? - Gosto, mas nos bares só bebo whisky e… Old Parr. Levantou o dedo e fez o pedido ao empregado. - Não bebo bebidas alcoólicas à noite, ainda mais estou de carro – disse-lhe tentando entrar naquele jogo de poucas palavras. Nunca tinha mantido uma conversa tão bizarra com alguém desconhecido como naquela noite. - Podemos sentar-nos ali e falar um pouco? – apontou para um recanto em que os quatro bancos e a mesa estavam vazios. Agarrei no copo ao mesmo tempo que ela dava um pequeno salto do banco. Sentámo-nos e pediu outro whisky. Falou, falou, falou… disse-me coisas sem sentido, que estava ali mas não de corpo inteiro, que naquele momento não passava dum pequeno fragmento dela própria. Falou das gotas que se formavam no meu copo pela interacção do gás e num determinado momento ainda articulou qualquer coisa no sentido de me dizer o que fazia ela ali. Havia surrealidade naquele ser esculturalmente belo e de lindíssimos olhos verdes. Apesar do discurso desfasado e delirante, a sua voz era doce, afável, tinha textura, era como se estivéssemos no final do verão e no princípio do outono, continha nostalgia em cada uma das palavras. O relógio continuava parado e nem dei pelo tempo passar. Pedi licença e dirigi-me às casas de banho. Passei um pouco de água no rosto e olhei-me no espelho. «Mas que raio tenho eu para aquela mulher vir ter comigo e falar de coisas absurdas? Não estou a entender nada do que diz.» Empurrei a porta de vaivém e afastei o cortinado grosso de veludo vermelho que cobria a entrada. Na mesa estavam os dois copos, sós. Da mulher, nem rastos! Numa das bases estava escrito: “obrigada”. Não sei se o que acabo de narrar aconteceu, confesso que não sei, provavelmente tudo não passa do efeito do ginger ale… «Podia ao menos ter dito o nome», pensei.

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