O PRIMEIRO BEIJO

Cada qual é para o que nasce e depois há os que, tal como eu, nascem e chegam a meio do percurso e ainda não perceberam nem por que é que nasceram nem para quê. Acreditem ou não, e não vale rir, já fui anjinho de procissão. A minha mãe sempre foi muito ligada à igreja e a tudo o que a ela dizia respeito e, por isso, lá fiz tudo o que a Santa Madre Igreja mandava e mais ainda o que a minha mãe achava que eu devia fazer. A verdade é que eu até gostava. Ia às missas, não se pode dizer por devoção, mas porque a minha mãe me dizia que quem não ia à missa ia direitinho para o Inferno, sem ter sequer hipótese de passar pelo purgatório, para apresentar reclamação. Para grande desgosto dela, só não tive entrada no coro, porque a minha voz não se parecia com nada. Bem que ela tentou subornar o ensaiador, oferecendo-lhe um borrego pela Páscoa e umas amêndoas de licor que eram a minha perdição mas, nada! - D. Lili, tenho muita pena, mas o Manel não pode ficar no coral. Deixe ver se, quando mudar a voz de pintainho para galaró, a coisa melhora e eu o consiga pôr aqui junto aos mais agudos… quem sabe! Para mim foi um sossego. Detestava aquelas cantorias e preferia mil vezes ficar cá em baixo ao pé da porta e aproveitar, enquanto a minha mãe fazia o peditório, para me escapar pela porta dos fundos e esfumaçar uma cigarrada com os mais velhos, que sabiam coisas que eu não sabia, mas que tinha muita pressa de aprender. A maior parte deles já namoriscava e já tinha roubado um ou dois beijos às miúdas, enquanto eu ainda só ensaiava esses beijos, de que eles tanto falavam, no espelho do meu guarda-fatos, enquanto a minha mãe rezava terço atrás de terço e o meu pai, que era um livre-pensador e um ateu convicto, lia e relia Marx e Gorki. Apesar dos meus 13 anos, não podia deixar de apreciar e me surpreender todos os dias com o casamento dos meus pais. As diferenças entre ambos eram tão gritantes e, no entanto, entrelaçadas por uma cumplicidade que eu não via nos pais dos meus melhores amigos. Nunca o meu pai teceu, pelo menos que eu ouvisse, um comentário com respeito à “ligação” que a minha mãe tinha com Cristo e jamais a minha mãe o criticou pela escolha das suas leituras todas viradas para o comunismo e que, na altura, eram castigadas com prisão, porque, nessa altura, tudo o que fugisse ao que era pré-estabelecido pelo regime e pela Igreja, simplesmente não prestava. Assim fui crescendo, entre “Deus é tudo e deus não existe”, sem realmente me preocupar muito se, quando morresse, iria para o céu ou se, morrendo, simplesmente acabava tudo. A verdade é que era um rapaz feliz, apenas com uma grande preocupação, quando raio é que eu ia arranjar uma namorada, para dar beijos de língua, conforme os meus amigos contavam e que depois, à noite, me tiravam o sono, porque não sabia se, chegada a altura, tinha realmente competência para deixar as meninas a suspirarem, como os meus amigos mais velhos deixavam. E assim, a pressa de crescer era tanta que, quando dei por mim, um dia, sem mais nem menos, vi-me apaixonado por uma menina linda de morrer e que eu tinha a certeza que jamais repararia num rapaz magro e escanzelado, com a cara cheia de borbulhas e com uma voz que nem era carne, nem era peixe. Aquela paixão consumia-me todos os dias, quando a via passar para o liceu que eu também frequentava, sempre sorridente e feliz e sem se dar ao trabalho de simplesmente olhar para mim. Eu era o rapaz mais infeliz do liceu. Nem os jogos da bola onde eu era craque me entusiasmavam. Eu só conseguia mesmo pensar naqueles olhos que nunca tinham olhado os meus e naquela boca sempre sorridente e pela qual eu mendigava por um sorriso. Eu só queria um sorriso… O meu pai, perspicaz como só ele, reparou que eu definhava de dia para dia, embora tentasse disfarçar, para não inquietar a minha mãe. E um dia, largou o livro que lia na altura, “A mãe”, de Gorki, que ele já tinha lido mais de 20 vezes, sem nunca se cansar e que sempre o surpreendia, como se o lesse pela primeira vez e disse-me: - Manel, temos de ter uma conversa de homem para homem. A minha mãe largou a novena que fazia na altura juntamente com a minha tia Carminho e mandou-me um olhar derretidinho de carinho que me fez corar até à raiz dos cabelos. Mau, pensei, querem ver que já todos sabem que estou apaixonado pela Maria Leonor? A Maria Leonor era afilhada de uma amiga da minha mãe e já lá tinha estado em casa, mas, nessa altura, eu ainda só queria era jogar às caricas e fazer corridas com os carrinhos. Ou seja, era uma criança. Agora era um “homem” de 14 anos, completamente consumido pelo bichinho do amor. Mas voltemos ao momento em que meu pai largou o livro e a minha mãe me lambeu com um sorriso doce… - Diga, pai. – respondi a medo. A minha mãe, adivinhando a conversa que lá vinha e consciente de que era uma conversa entre homens, saiu da sala com a minha tia, a pretexto de irem regar as flores e deixaram-me a mim, indefeso e apaixonado, com o meu pai, livre-pensador e sábio. - Então, filho, não me queres dizer o porquê dessa tristeza? Problema com as notas não é, porque sei que continuas a ser bom aluno e cumpridor. Triste por não estares no coral da igreja, também não, porque sei perfeitamente que desafinas de propósito, para não seres aceite… Olhei o meu pai, surpreso. Era mesmo sábio. E continuou: - Ou pensas que não te oiço cantar no teu quarto, afinadinho e quase tão bem como o Paulo de Carvalho e o Fernando Tordo? Por isso, só pode ser mal de amor. Sei muito bem o que isso é e sei que dói que se farta, quando não se é correspondido. É uma dor que só mesmo Camões soube descrever… Quem é ela? Anda, diz lá, que eu não digo nada à tua mãe. É que ela é que me alertou… Pensas que ela só pensa em rezas? Enganas-te. Está sempre alerta. Não lhe escapa nada. É o nosso anjo da guarda… - Então, mas o pai acredita em anjos? - Acredito que todos neste mundo, que é o único que existe, todas as pessoas que olham por nós, que nos querem bem e nos mostram sensatamente os caminhos que devemos seguir, são nossos anjos da guarda e a tua mãe é o nosso anjo mais fiel e atento. Concordei com o meu pai. A minha mãe era o nosso anjo e não aquele que tinha asas e que ela tinha posto sobre a minha cama para zelar por mim. - É a Maria Leonor, afilhada da tia Carminho. Ela é tão linda, pai! Mas não me liga nenhuma. Passa por mim e nem me vê… - Tens a certeza de que não te vê? Abanei a cabeça, tristemente e em gesto afirmativo. - Pois olha, não é isso que a tua tia Carminho disse à tua mãe!… Os meus olhos abriram-se de espanto e encheu-se-me o meu coração de uma coisa da qual eu nem sei o nome. Fiquei à espera que o meu pai continuasse. - É que ela queixou-se à mãe dela que ficava sempre à espera que tu a cumprimentasses, mas que, sempre que passas por ela, baixas a cabeça e não dizes nada. Não percebes nada de mulheres e eu, meu rapaz, também não sou grande entendido, porque as mulheres, quando as entendemos, perdem toda a graça. Não há dúvida de que o meu pai é um homem sábio. Naquela altura, tive a certeza. No dia seguinte, vesti a minha melhor camisa aos quadradinhos azuis, enchi-me do perfume “Brut” do meu pai e fiz-me mais cedo ao caminho. Queria chegar ao liceu cedinho, para a ver chegar. E ela chegou, com uma mini-saia às pregas e uma camisa também azul e eu achei que aquela sintonia de cores era um sinal. E enchi-me de coragem. E corei. E perdi a força nas pernas. E disse-lhe com voz de galaró, quando ela ia a passar com as amigas: - Olá, Maria Leonor. E ela ficou para trás. E corou. E pôs o cabelo para trás da orelha. E disse-me com voz de rebuçado: - Olá, Manel. Nessa tarde, levei-a até ao portão de casa, de mão dada e trocámos o primeiro beijo, que foi tão bom que eu não consigo descrever!… Nessa noite, voltei a não dormir bem. Mas a causa era outra. Nessa noite, não dormi, porque não queria perder o sabor da Maria Leonor, que continuava na minha boca. Tinha medo de adormecer e de o perder… Mas não perdi. Passaram vinte anos. A Maria Leonor, que enquanto eu escrevo mais estas páginas no meu diário, dorme atravessada na nossa cama, está ali, inteira, só minha, para que eu possa recordar esse sabor do primeiro beijo, sempre que me apetecer. Grandes lições eu aprendi com o livre-pensador que era o meu pai e a santa da minha mãe, que foi sempre nosso anjo da guarda. Ah… ia-me esquecendo: eu e a Maria Leonor, depois do nosso beijo, ingressámos no coral da igreja. A alegria foi tanta que comecei a cantar bem! Continuo sem saber muito bem para que nasci, mas, provavelmente, foi para ser filho de quem fui e roubar o primeiro beijo à mulher da minha vida.

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